
Uma decisão do Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE) tornou-se o ponto central de um dos episódios mais graves de colapso social no interior do estado. Meses após ser absolvido por falta de provas e colocado em liberdade pela Vara de Delitos de Organizações Criminosas, o traficante José Witals da Silva Nazário, o Playboy, liderou a expulsão de cerca de 2 mil moradores do distrito de Uiraponga, em Morada Nova. A sentença, que rejeitou a denúncia do Ministério Público, acabou permitindo que um dos chefes do crime voltasse ao comando de seu bando e desencadeasse a fuga em massa que esvaziou completamente o vilarejo.
A absolvição sustentada pelo TJCE afirmava que a denúncia contra Playboy era “vaga e genérica”, sem comprovação mínima de sua atuação na organização criminosa conhecida como “novo cangaço”. Na prática, o entendimento judicial ignorou relatos do próprio Ministério Público e informações de investigações locais que já apontavam o envolvimento de Playboy com o grupo Guardiões do Estado (GDE). Com a liberdade concedida, ele retomou imediatamente a disputa territorial com o rival Mingau, e foi essa guerra interna do tráfico que explodiu em Uiraponga. O tribunal, mesmo questionado, reiterou que “não havia provas suficientes”.
Enquanto os autos falavam em ausência de vinculação, a realidade da caatinga mostrava o contrário. Já em liberdade, Playboy ordenou a expulsão generalizada dos moradores como estratégia para isolar o grupo adversário. Em julho, o assassinato brutal de José Audivan Bezerra de Freitas, deixado com a cabeça destroçada no centro do distrito, serviu como aviso final. Casas foram abandonadas às pressas, escola e posto de saúde fecharam as portas, e apenas cinco famílias resistem. A suposta “pacificação” anunciada pelo governo não trouxe ninguém de volta.
O caso expõe um problema cada vez mais frequente no Ceará: decisões judiciais que devolvem às ruas líderes de facções em meio a disputas territoriais que o próprio Estado não consegue controlar. Enquanto cidades como Sobral, Maranguape e Pacatuba registram episódios semelhantes de expulsões, Uiraponga permanece como exemplo extremo do impacto que uma única decisão pode ter — não apenas na segurança pública, mas na sobrevivência de uma comunidade inteira.
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