
O Comando Vermelho está presente em quase todo o Brasil, mas segue sem espaço no Rio Grande do Sul — um dos poucos estados onde a facção nunca fincou território. Especialistas explicam que isso acontece porque o crime organizado gaúcho já tinha suas próprias estruturas muito antes da expansão nacional do CV. Nos anos 1990 e 2000, facções locais tomaram conta de presídios e comunidades, criando redes de poder que dispensaram a presença de grupos de fora.
Com o tempo, essas organizações se espalharam pelo interior do estado e dominaram praticamente todas as prisões relevantes. Segundo juízes e pesquisadores, não sobrou “vácuo de poder” para ser ocupado. O resultado foi um ecossistema criminal próprio, com múltiplas facções disputando espaço entre si. Hoje, o Rio Grande do Sul já registrou ao menos dez grupos diferentes em atividade — um número recorde no país. A identidade cultural forte também pesa: há um pacto informal para não abrir espaço a facções externas, reforçando a lógica de autonomia local.
Mesmo assim, relações comerciais existem. O CV não atua diretamente no estado, mas mantém parcerias pontuais com facções gaúchas, principalmente na compra e distribuição de drogas. Pesquisadores afirmam que são negócios, não submissão: não há comando centralizado, nem uso simbólico da “bandeira” do Comando Vermelho. A violência gerada pela guerra nacional entre CV e PCC, em 2016 e 2017, chegou ao Rio Grande do Sul justamente por causa dessas conexões comerciais.
Enquanto isso, as facções gaúchas seguem outro caminho: em vez de tentar se expandir para outros estados, se espalham para cidades médias e pequenas dentro do próprio território. A Secretaria da Segurança Pública aponta motivos adicionais para a ausência do CV: distância das grandes rotas de tráfico, características socioculturais próprias e atuação firme das forças policiais. A soma desses fatores torna o Rio Grande do Sul um caso raro no mapa do crime organizado — um estado onde o poder permanece dividido, mas essencialmente local.
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