
Na Itália, o crime organizado moldou o conceito moderno de poder paralelo. Três organizações mafiosas tornaram-se sinônimo de império criminoso: a Cosa Nostra, na Sicília; a Camorra, em Nápoles; e a ’Ndrangheta, na Calábria.
A Cosa Nostra imortalizada no cinema, mas enraizada na política e na economia foi, durante décadas, comandada por Salvatore “Totò” Riina, o temido capo dei capi, que morreu preso após um longo reinado de terror. Sob sua liderança, a máfia siciliana eliminou juízes, promotores e autoridades que ousaram enfrentá-la.
Nos anos 1980 e 1990, os atentados que mataram os juízes Giovanni Falcone e Paolo Borsellino escancararam o alcance do poder mafioso quando o Estado se acovarda. Falcone, símbolo da coragem judicial, foi assassinado por ordens diretas de Riina. Como disse o próprio Falcone: “Os homens passam, as ideias permanecem — e continuarão a caminhar sobre as pernas de outros homens.”
Devemos, por dever de memória histórica, lembrar o caso Aldo Moro, primeiro-ministro italiano sequestrado e assassinado em 1978. Não foi obra das máfias, mas sim de uma organização terrorista de extrema esquerda — as Brigadas Vermelhas —, que buscavam instaurar uma revolução comunista no país. Um de seus líderes, Cesare Battisti, refugiou-se e encontrou sólido abrigo no Brasil décadas depois, já durante as gestões petistas, vivendo confortavelmente sob proteção política, até ser extraditado após intensa disputa judicial e política para mantê-lo livre aqui. Qualquer semelhança com o Brasil não é mera coincidência.
A partir dos anos 1980, durante a redemocratização e a ascensão de lideranças populistas, as facções criminosas encontraram espaço para se estruturar como verdadeiras organizações políticas. Aqui, enquanto o cidadão pobre era condenado a penas desproporcionais por pequenos delitos, o Estado brasileiro acolhia criminosos internacionais e oferecia abrigo à impunidade.
Esse contraste plantou no imaginário do delinquente local uma ideia perigosa: a de que o crime, no Brasil, pode ser um projeto viável — desde que bem articulado politicamente. Desde os anos 1980, com a redemocratização e a eleição de Leonel Brizola no Rio de Janeiro, as facções criminosas encontraram terreno fértil para crescer, aproveitando-se da ausência do Estado e do discurso de conivência travestido de garantismo. Foi ali que o tráfico consolidou seus “territórios”, transformando comunidades em zonas autônomas do crime.
Em São Paulo, outra vertente do problema nasceu dentro dos presídios: o Primeiro Comando da Capital (PCC), criado inicialmente como uma “união de presos” em defesa de direitos básicos, evoluiu para um império do crime com estrutura empresarial e código de ética próprio. O que começou como uma forma de proteção rapidamente se tornou um modelo de poder paralelo — com braços armado, político e financeiro.
O passo seguinte foi inevitável: buscar representação política e legitimidade institucional. Hoje, facções organizadas têm canais de interlocução com lideranças políticas, financiam campanhas e utilizam empresas de fachada, postos de combustíveis e redes comerciais para lavar dinheiro. Não é raro ver criminosos sendo recebidos por autoridades em Brasília ou por ministros da mais alta corte, sob o pretexto de “dialogar com as comunidades”.
O resultado é um país onde o Estado divide o território com o crime, e o cidadão vive cercado por dois poderes igualmente corruptos: o da política e o das facções. Não nos enganemos: o próximo passo do crime organizado é institucional. Já há indícios de que representantes ligados a facções estão sendo eleitos para parlamentos municipais, estaduais e até para o parlamento federal.
E não será surpresa se, em breve, algum “deputado” com esse histórico ocupar a tribuna para se apresentar como “defensor do povo” — do mesmo povo que suas organizações oprimem e exploram. O Brasil não é mais apenas um país com problemas de segurança pública. É um Estado infiltrado, capturado e corrompido por dentro.
Quando o crime aprende a falar a linguagem da política e a usar o dinheiro sujo como ferramenta eleitoral, o perigo deixa de estar apenas nas ruas — ele passa a morar nas instituições. Nos últimos anos, vimos exemplos escancarados dessa conivência institucionalizada: governos estaduais que negociam com facções para evitar rebeliões em presídios; prefeitos e parlamentares que recebem apoio eleitoral em comunidades dominadas por traficantes; e até decisões judiciais brandas que liberam líderes de organizações criminosas sob o manto de “direitos humanos”, enquanto a população pobre segue refém do medo.
Em 2017, quando o país testemunhou massacres em presídios do Norte e Nordeste, o poder público limitou-se a culpar o “sistema”, como se as penitenciárias não fossem responsabilidade direta dos governos. No mesmo período, relatórios oficiais mostravam que o PCC e o Comando Vermelho já controlavam rotas de tráfico internacional e lavavam bilhões em empresas aparentemente legais — algumas, inclusive, fornecedoras de governos estaduais e municipais. Enquanto isso, governadores pediam “trégua” às facções para evitar confrontos.
Em várias capitais, a polícia passou a precisar de autorização informal para entrar em determinadas áreas, sob pena de deflagrar conflitos de grandes proporções. Essa é a realidade de um país que perdeu o monopólio da força. A omissão não é apenas covardia — é cumplicidade ativa. Como dizia Falcone: “Quem cala diante do mal é seu cúmplice.”
Quando o crime se institucionaliza, é porque alguém o permitiu, alguém o protegeu e alguém lucrou com ele. Hoje, o Brasil assiste passivamente à expansão territorial das facções, que já controlam portos, fronteiras e setores inteiros da economia informal. Em muitas cidades, o Estado só aparece nas placas das viaturas — quando aparece. E, pior, o discurso político dominante já normalizou o inaceitável: fala-se em “diálogo com o tráfico”, “mediação de conflitos” e “comunidades autogeridas”, como se o poder armado fosse apenas mais um ator legítimo na democracia. Essa falência moral é o que sustenta o colapso institucional.
Um país que convive pacificamente com o domínio de facções sobre escolas, igrejas e serviços públicos não precisa ser invadido — já se rendeu. O desafio nacional, portanto, não é apenas de segurança. É ético e civilizatório. O Brasil precisa decidir se quer continuar sendo um território onde o crime dita as regras ou se ainda há coragem suficiente para retomar o controle — e restaurar a autoridade moral de um Estado que há muito tempo deixou de governar.
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