
Aline Bardy Dutra, conhecida virtualmente como Esquerdogata, construiu uma base de mais de 800 mil seguidores com discursos inflamados sobre política, justiça social e “luta coletiva”.
Agora, o Ministério Público de São Paulo (MPSP) quer que ela explique por que transformou a militância em rifas ilegais online, realizadas sem qualquer autorização do Ministério da Fazenda.
Segundo o promotor Paulo José Freire Teotônio, da Promotoria de Justiça Criminal de Ribeirão Preto, Aline comercializava rifas e sorteios em suas redes sociais sem seguir as regras básicas exigidas por lei.
O caso foi classificado como contravenção penal, e a influenciadora pode escapar de um processo judicial se aceitar o acordo proposto de pagar 10 salários mínimos — valor definido com base em sua popularidade e alcance digital.
O Ministério Público foi claro: ou Aline paga o acordo, ou enfrentará a Justiça.
O pagamento poderá ser parcelado, mas, segundo o promotor, o objetivo é mostrar que “a internet não é uma terra sem lei”.
“Rifas e apostas online exigem autorização formal do governo, comprovação de origem do dinheiro e finalidade social. O que se vê são influenciadores transformando seguidores em fonte de lucro fácil, sem qualquer responsabilidade”, afirmou o promotor ao Metrópoles.
Se a influenciadora aceitar o acordo e quitar integralmente o valor, evita a ação penal, mas terá de admitir a irregularidade de sua conduta — o que, politicamente, é uma derrota para quem se apresenta como símbolo de ética e justiça social.
Até o momento, Aline Bardy não se manifestou publicamente sobre a acusação.
O silêncio, porém, soa alto — especialmente para quem costuma atacar “os privilégios da elite” e defender “a moral da esquerda”.
Vale lembrar que as investigações começaram meses antes de outro episódio polêmico: a prisão da influenciadora por desacato a policiais militares, em Ribeirão Preto, no fim de outubro.
Na ocasião, ela foi filmada ofendendo agentes públicos durante uma abordagem, em um vídeo que viralizou e reforçou o tom de enfrentamento que marca sua persona online.
Os artigos 50 e 51 do Decreto-Lei nº 3.688/1941 deixam claro: rifas, sorteios e apostas sem autorização federal configuram contravenção penal.
Embora seja uma infração de menor potencial ofensivo, o crime exige regularização, transparência e recolhimento de impostos.
Mas, como se vê, o zelo pela legalidade que Aline exige de “ricos e poderosos” não parece valer quando o dinheiro entra pelo seu próprio caixa digital.
A Esquerdogata sempre se apresentou como voz da esquerda crítica, criativa e autêntica — uma militante que denuncia desigualdades, fala em empoderamento e vende produtos com frases de resistência.
Agora, enfrenta o paradoxo que destrói boa parte das lideranças progressistas: o abismo entre a teoria e a prática, entre o discurso da honestidade e o negócio irregular.
O caso da Esquerdogata é mais do que uma denúncia isolada — é um retrato de como parte da militância digital da esquerda brasileira transformou seguidores em mercado e ideologia em vitrine.
Enquanto prega moralidade, se beneficia da desinformação e de práticas que o próprio grupo político condena.
E, no fim, o resultado é previsível: mais um nome da “nova esquerda” flertando com a velha contravenção.
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