
Um dos episódios mais tristes e chocantes do noticiário recente envolve o assassinato do ex-deputado e fundador do Partido dos Trabalhadores, Paulo Frateschi, de 75 anos, morto pelo próprio filho, Francisco Frateschi, de 34. O caso, ocorrido em São Paulo, expôs com brutalidade a delicada fronteira entre o sofrimento mental, o acesso precário ao tratamento psiquiátrico e as falhas nas políticas públicas voltadas à saúde mental no país.
De acordo com os registros da Polícia Civil, a tragédia ocorreu após um surto psicótico de Francisco, diagnosticado com transtorno bipolar. O rapaz, descrito por familiares como “doce e carinhoso”, estava em São Paulo acompanhado da família para iniciar um novo tratamento psiquiátrico. Por volta das 7h da manhã, ele se mostrou “muito agitado” e, em meio a uma crise de agressividade, feriu a mãe e a irmã antes de desferir golpes fatais contra o pai.
A irmã, Luísa Maux Vianna Frateschi, relatou que tentou contê-lo, mas foi empurrada, e a mãe acabou fraturando o braço. Na sequência, Francisco partiu para cima do pai com uma faca. Na tentativa de impedir o ataque, Luísa também ficou ferida — mordeu, levou um tapa e fraturou um dedo. Após o crime, o rapaz teria voltado a si, dizendo estar “morrendo”, mas logo voltou a se descontrolar com a chegada da polícia.
Sedado e contido à força por policiais militares, Francisco foi levado à UPA da Lapa, onde permanece internado sob escolta, sedado e incomunicável.
O psicanalista Cássio Barroso, que acompanhava o tratamento de Francisco há cerca de um ano, confirmou o diagnóstico de bipolaridade e relatou episódios anteriores de hipomania. Segundo ele, tudo indica que o rapaz teve um surto psicótico agudo. A irmã afirmou que o irmão tomava regularmente os medicamentos prescritos, mas apresentava variações de humor severas.
A tragédia reacende o debate sobre o desamparo dos pacientes psiquiátricos e de suas famílias, que muitas vezes lidam com doenças graves em meio a lacunas estruturais do sistema de saúde mental brasileiro.
Francisco segue sob custódia policial e será ouvido apenas após alta médica. O caso segue em investigação pelo 91º Distrito Policial (Ceagesp). O advogado da família, Lucas Bostolozzo Clemente, acompanhou o registro do caso e afirmou que todos os esforços estão voltados para o tratamento psiquiátrico do rapaz.
Militante histórico, Paulo Frateschi foi uma das vozes mais atuantes do PT desde sua fundação. Deputado estadual entre 1983 e 1987, foi também secretário nas gestões de Marta Suplicy e Fernando Haddad. Torturado na ditadura militar aos 19 anos, Frateschi foi símbolo de resistência e coerência política.
A tragédia que vitimou Paulo Frateschi é mais do que uma tragédia doméstica. É o retrato de um país que ainda trata doença mental com negligência e desinformação. Famílias inteiras sofrem em silêncio, e muitos episódios como este poderiam ser evitados com políticas de prevenção, acesso rápido ao atendimento e suporte especializado contínuo.
Enquanto as investigações avançam, resta a dor e a reflexão: até quando o Brasil continuará tratando a saúde mental como um tema secundário?
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