
Belém, palco da abertura da COP30, tornou-se o cenário ideal para a encenação de um velho roteiro: o discurso salvador de um governo que destrói com uma mão o que promete proteger com a outra. Sob holofotes internacionais, Luiz Inácio Lula da Silva defende “justiça climática” e combate à fome, enquanto, nos bastidores, seu governo aprova projetos de exploração de petróleo na Amazônia, flexibiliza leis ambientais e fecha os olhos para o avanço do garimpo e do desmatamento. É o retrato perfeito da contradição travestida de virtude.
Em seu pronunciamento, Lula pediu “coragem para transformar a realidade”, mas o Brasil parece ter coragem apenas para transformar florestas em cinzas e rios em lama. Que moral tem o presidente para cobrar do mundo compromisso ambiental enquanto o próprio país destrói sua maior riqueza natural? Falar em justiça climática desmatando é como discursar pela paz com uma arma em punho. O discurso verde, polido e aplaudido, contrasta com a fumaça espessa que ainda cobre o céu da Amazônia.
E os números não mentem. Entre janeiro e março de 2025, o Brasil registrou 912,9 mil hectares queimados, segundo dados do Monitor do Fogo, iniciativa do MapBiomas que usa imagens de satélite para mapear e quantificar as áreas afetadas por incêndios em todo o país. Embora o número represente uma redução de 70% em relação ao mesmo período de 2024, a devastação ainda é colossal — quase um milhão de hectares em apenas três meses. O dado mais alarmante: a Amazônia concentrou 84% de todas as áreas queimadas, evidenciando que o “pulmão do planeta” continua sendo o epicentro da destruição.
O levantamento mostra ainda que 78% da área queimada entre janeiro e março era vegetação nativa, principalmente formações campestres, que representaram 43% da área total atingida pelo fogo. Mesmo as áreas agropecuárias, sobretudo pastagens, não escaparam: foram 137 mil hectares queimados no trimestre. Os satélites registram, a cada ano, o rastro do fogo; o governo, por sua vez, insiste em registrar apenas discursos.
Lula tenta se colocar como líder global de um “novo pacto climático”, mas seu governo segue atolado em velhas práticas de exploração e contradição. O país que cobra o mundo por responsabilidade ambiental é o mesmo que autoriza prospecção de petróleo em área sensível do bioma amazônico. O mesmo que se vangloria de metas verdes enquanto o Ibama sofre com cortes, a fiscalização é sabotada e o agronegócio ilegal avança sobre terras indígenas.
A retórica de “combater a pobreza e a fome” soa nobre, mas serve de verniz para encobrir o que de fato acontece: um governo que fala em sustentabilidade enquanto alimenta o modelo predatório de crescimento, baseado na exportação de commodities e na devastação silenciosa. A “justiça climática” virou slogan conveniente — útil para conquistar aplausos em auditórios climatizados, mas inútil diante das queimadas que consomem o pulmão do planeta.
Enquanto Lula fala em nome do “povo da floresta”, comunidades indígenas são deslocadas, rios contaminados e biomas dizimados em nome do progresso. É curioso ver o Brasil se vender como exemplo de transição verde, quando sequer consegue proteger seus defensores ambientais — perseguidos, mortos ou silenciados. De justiça climática, o país entende pouco; de marketing político, muito.
E não há como ignorar o tom de ironia na defesa de uma “governança global mais inclusiva” vinda de um governo que centraliza decisões, sufoca críticas e coopta movimentos ambientais. Lula pode tentar convencer o mundo de que o Brasil é protagonista da agenda ecológica, mas dentro de casa, o cenário é outro: um estado omisso diante das chamas e generoso com os exploradores.
A presença de líderes como Emmanuel Macron e Ursula von der Leyen reforça o peso diplomático da COP30 — mas também expõe o desconforto de uma plateia que ouve belas palavras vindas de um palco cercado por contradições. Como cobrar dos outros aquilo que o Brasil não pratica? É o paradoxo de uma nação que se apresenta como guardiã do planeta enquanto destrói seu quintal.
O presidente fala em “transformar a realidade”, mas talvez o que precise mudar primeiro seja a narrativa. O Brasil não precisa de um messias ecológico, e sim de coerência política, fiscalização eficiente e compromisso real com o meio ambiente. Justiça climática começa em casa — e não em discursos coreografados diante de câmeras estrangeiras.
A COP30 poderia ser a COP da Verdade, como diz Lula, mas a verdade dói: o país que mais fala sobre clima é o mesmo que menos pratica o que prega. No palco de Belém, entre palmas e promessas, o Brasil mais uma vez sobe ao microfone para ensinar o mundo o que ainda não aprendeu a fazer.
TRAGÉDIA PLUVIAL Chuvas em Pernambuco expõem tragédia anunciada e cobram preço alto da omissão
CARDÁPIO POLÊMICO Paca no prato, crise na mesa: o almoço de Páscoa que virou símbolo de desconexão
PIAUÍ Carga de veneno saqueada após acidente em Bertolínia aumenta risco de contaminação Mín. 23° Máx. 32°