
O Brasil vive uma escalada preocupante de pessoas em situação de rua: segundo o Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com População em Situação de Rua (OBPopRua/UFMG), o país registrava 358.553 pessoas em situação de rua em outubro de 2025 — um número que sinaliza a gravidade e a dispersão do problema em todo o território nacional.
A concentração é sobretudo no Sudeste: o estado de São Paulo, sozinho, concentra 148.730 pessoas em situação de rua, das quais cerca de 99.477 vivem na capital paulista — números que explicam por que praças e viadutos paulistanos viraram símbolo do fenômeno.
No Nordeste e no interior do país o retrato também é alarmante: o levantamento do OBPopRua usa registros do CadÚnico e mostra crescimento em várias unidades federativas, reflexo da combinação entre pobreza persistente, desemprego, e fragilidade das redes de assistência social.
Box — Números rápidos
• Pessoas em situação de rua no Brasil (out/2025): 358.553.
• Estado com maior contingente: São Paulo – 148.730 (capital: 99.477).
• Rio de Janeiro: 33.081; Minas Gerais: 32.685.
• Piauí (mar/2025, CadÚnico): 1.663 pessoas em situação de rua.
A explicação para esse “explodir” de pessoas nas praças e calçadas é multifacetada. Estudos do IPEA e levantamentos acadêmicos apontam fatores estruturais — crise de moradia, insuficiência de políticas habitacionais, desemprego e redução do poder de compra — somados a fatores conjunturais, como efeitos sociais da pandemia, aumento da inflação e cortes em programas de assistência.
Há também um componente de saúde mental e uso de substâncias: pesquisas médicas e sociais identificam que parcela das pessoas em situação de rua vive com transtornos mentais ou dependência química, condições que exigem respostas integradas (saúde, assistência social e habitação) que muitas cidades não conseguem oferecer.
Em capitais como São Paulo, o crescimento deu-se em ritmo acelerado: de algumas dezenas de milhares para quase 100 mil na capital, segundo o OBPopRua — reflexo tanto de fluxos internos de migração quanto do esgarçamento das redes de proteção social. O fenômeno não se limita a grandes metrópoles: cidades menores também registram aumentos proporcionais muitas vezes maiores.
No Piauí, o salto chama a atenção: o número consolidado em CadÚnico e sistematizado pelo observatório chegou a 1.663 pessoas em situação de rua em março de 2025 — crescimento acentuado frente a séries anteriores e sinal de que a capital e alguns municípios do interior vêm sentindo o efeito concentrado da crise social.
Em Teresina, a presença nas praças é visível e diária. Locais como a Praça João Luiz Ferreira (centro) e pequenos logradouros do bairro Jóquei Clube foram citados por moradores e imprensa local como pontos em que famílias e indivíduos estabeleceram “moradia pública” improvisada — colchões, roupas estendidas e utensílios pessoais à mostra. A prefeitura já anunciou iniciativas de censo e mapeamento para qualificar o atendimento.
Autoridades locais e o Ministério Público do Piauí têm buscado respostas: o MPPI realizou audiência pública e eventos para articular um “fluxo” de atendimento que envolva assistência social, saúde e abrigamento. A Prefeitura de Teresina também divulgou ações para realizar um censo municipal que oriente políticas públicas e facilite encaminhamentos. Mas gestores reconhecem a dificuldade de oferta de vagas em abrigos, de serviços integrados e de recursos contínuos para enfrentar um problema em expansão.
Especialistas consultados por este serviço destacam que a solução passa por três frentes mínimas e simultâneas: (1) moradia de transição e acesso a programas habitacionais; (2) rede de saúde mental e atenção básica com cuidado comunitário e capilaridade; (3) políticas de geração de renda e reinserção social com foco em acompanhamento contínuo. Medidas isoladas — recolhimentos temporários ou operações pontuais — não resolvem o déficit estrutural.
Por fim, a visibilidade do fenômeno (a praça transformada em dormitório, o núcleo familiar compartilhando o coreto da pracinha) tem impacto direto sobre a cidade: comerciantes, moradores e usuários do espaço público reclamam da sensação de insegurança e da degradação urbana; movimentos sociais e organizações de defesa de direitos exigem dignidade, não remoções; autoridades tentam equilibrar assistência e ordem pública. A chave, dizem técnicos, está em políticas públicas integradas, continuidade orçamentária e compromisso intersetorial — prioridade que, até aqui, tem se provado mais retórica do que prática em muitas cidades.
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