
A decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, de determinar a preservação integral das provas da megaoperação no Rio de Janeiro é, no mínimo, tardia. Enquanto as determinações jurídicas se arrastavam entre petições e ofícios, as comunidades transformaram o campo de batalha em palco de encenação, apagando rastros, trocando roupas, movimentando corpos e contaminando completamente a cena dos crimes.
Na prática, não há mais local a ser periciado com credibilidade. As marcas do confronto — que poderiam comprovar a ação legítima das forças de segurança — foram alteradas. Corpos de traficantes fortemente armados foram despidos, transformando combatentes em supostas vítimas indefesas. As roupas camufladas, as botas e os coletes táticos sumiram. E o que sobrou? Uma narrativa cuidadosamente construída para culpar o Estado e inocentar o crime organizado.
O ministro Moraes parece não perceber — ou finge não perceber — que a realidade nas comunidades controladas por facções é outra. Quem domina o território dita as regras, inclusive sobre como o pós-confronto deve ser mostrado à imprensa e à opinião pública. Quando os corpos foram removidos por moradores antes da chegada dos peritos, a verdade foi levada junto. Qualquer laudo agora será uma peça de ficção forense.
É curioso observar o zelo de Moraes com o “respeito à lisura probatória”, quando a lisura já foi corrompida na raiz. O STF quer preservar o quê? Os cadáveres já foram manipulados, o cenário alterado, e os indícios destruídos. A decisão pode soar bonita no Diário Oficial, mas, na prática, é uma ordem para preservar o que já não existe.
Enquanto isso, lideranças comunitárias e ONGs alinhadas a discursos ideológicos correm para ocupar o espaço da narrativa. Tentam transformar traficantes fardados e armados em mártires da violência estatal. E o ministro, ao atender pedidos dessas entidades, acaba — talvez involuntariamente — legitimando um teatro trágico onde o Estado é sempre o vilão e o crime, a vítima incompreendida.
O mais grave é que há provas audiovisuais mostrando traficantes com roupas de combate e armas de guerra. Mas, misteriosamente, quando as imagens dos corpos vieram à tona, todos estavam de cueca. Como explicar esse sumiço sincronizado dos trajes de guerra? Por que tamanha pressa em “humanizar” os mortos? A pressa em alterar a cena denuncia algo maior: um esforço coordenado para reescrever os fatos antes que a perícia pudesse registrá-los.
O ministro Moraes deveria se perguntar: quem realmente manipula a verdade no Rio de Janeiro? Os policiais que arriscam a vida em meio ao fogo cruzado ou os agentes da desinformação, que tentam transformar criminosos armados em vítimas de abuso de poder? A decisão de convocar audiência com coletivos e movimentos sociais soa como um gesto político, não jurídico. E o resultado é previsível: a balança da justiça inclinada para o lado do caos.
Enquanto Moraes agenda reuniões em Brasília, os investigadores no Rio tentam trabalhar em meio a um cenário contaminado por interesses, mentiras e medo. Nenhum perito sério poderá garantir que o que será analisado reflete o que realmente aconteceu. A verdade foi desmontada, os vestígios apagados e o rastro da manipulação varrido sob o tapete da impunidade.
O Brasil assiste, estarrecido, ao espetáculo da inversão moral: o Estado julgado, o crime defendido, e o Supremo aplaudindo o roteiro. Quando a toga se mistura à ideologia, a justiça perde o sentido — e a sociedade, a esperança.
No fim, restará apenas a farsa. Os corpos, agora “vítimas”, serão chorados por aqueles que os usaram como escudo. E as provas que Moraes tanto exige, se algum dia existiram, foram sepultadas junto com a verdade — numa cova comum chamada Brasil.
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