
Os protestos e greves na área da saúde costumam, historicamente, partir da base — enfermeiros, técnicos, servidores anônimos. Mas quando a indignação vem da classe médica, é sinal de que o quadro é grave, e o paciente, no caso, é o próprio sistema de saúde pública do Piauí. O alerta é do Sindicato dos Médicos (SIMEPI), que nesta quinta-feira (30/10) foi às ruas de Teresina denunciar o que chama de “maquiagem da gestão estadual”, acusando o governo de Rafael Fonteles de gastar milhões em publicidade enquanto hospitais colapsam.
Em frente ao Hospital Getúlio Vargas, símbolo da rede pública estadual, médicos, fisioterapeutas e servidores da saúde empunharam cartazes pedindo reajuste salarial, concurso público e o fim das Organizações Sociais (OSS), empresas privadas contratadas para gerenciar hospitais públicos. Para o SIMEPI, as OSS se tornaram um canal de desvio de dinheiro e aparelhamento político, sob o pretexto de “modernizar” a gestão.
A presidente do sindicato, Lúcia Santos, foi direta: “Todo dia a gente vê dinheiro sendo desviado. A saúde virou moeda de troca, e o governo prefere investir em propaganda do que em remédio, estrutura e dignidade para quem trabalha e para quem precisa ser atendido”. A médica denuncia que, enquanto os pacientes esperam por cirurgias e exames, o governo enche as redes sociais de campanhas e vídeos institucionais, vendendo uma saúde que só existe na tela — e não nas filas.
De acordo com o SIMEPI, a falta de diálogo é outro sintoma de um governo que se recusa a ouvir. As categorias tentaram negociar com a Secretaria de Estado da Saúde, mas ouviram um “não” categórico: as OSS continuarão administrando os hospitais, mesmo com as denúncias de assédio, má gestão e precariedade. A presidente do sindicato lamenta: “Quando a população acordar, nem a fantasia, nem a ludibriação vão esconder o colapso”.
Além dos médicos, o Sindicato dos Servidores da Saúde Pública (SINDESPI) e o Sindicato dos Fisioterapeutas e Terapeutas Ocupacionais (SINFITO-PI) engrossaram o coro. Maria Trindade, do SINDESPI, denunciou abusos morais, falta de medicamentos e humilhações dentro dos hospitais. Segundo ela, o governo trata os servidores como descartáveis: “Quem cuida da vida é quem mais sofre com o descaso”.
A manifestação, mais do que um ato de categoria, foi um diagnóstico político: o governo que diz cuidar das pessoas está deixando o SUS morrer lentamente, enquanto investe em narrativas e campanhas publicitárias para disfarçar o colapso. O SIMEPI não fala por interesses corporativos, mas por um direito coletivo: a saúde pública do Piauí está na UTI, e o silêncio do governo é o som da omissão.
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