
O Brasil acordou mais uma vez perplexo diante de uma cena que já se tornou rotina: confrontos sangrentos entre facções e forças policiais, bairros sitiados, helicópteros sobrevoando favelas, corpos espalhados no chão e um governo federal que insiste em assistir de longe.
A megaoperação realizada nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, deixou um rastro de mortes, dor e perguntas sem resposta. Perguntas que agora ecoam no Congresso Nacional e nas ruas: por que o Ministério da Justiça recusou apoio três vezes ao governo fluminense? E por que, mesmo informado, o governo federal decidiu não se envolver?
O ministro Ricardo Lewandowski afirmou publicamente que “não houve solicitação formal” do Rio de Janeiro. Mas o discurso durou pouco. Foi desmentido, em plena coletiva, pelo diretor-geral da Polícia Federal, que confirmou ter sido procurado pelo governo estadual e decidido não participar da ação. Uma contradição que expôs fissuras no interior do próprio ministério e alimentou a desconfiança da opinião pública.
A oposição na Câmara dos Deputados reagiu de imediato. O deputado Luciano Zucco apresentou requerimento para convocar Lewandowski e exigir explicações. “O governo federal foi omisso. Preferiu a neutralidade quando o que se esperava era firmeza”, disse o parlamentar.
Mais do que uma crise de comunicação, o episódio evidencia uma crise de convicção política. O governo Lula 3 parece perdido entre o discurso ideológico e a necessidade prática de reagir a uma criminalidade que já atua como máfia transnacional.
O presidente, aliás, já deixou clara sua posição: “Enquanto eu for presidente, não haverá GLO no Rio de Janeiro. Eu não quero o Exército brigando com bandido.” A frase, dita com orgulho, hoje soa como uma confissão de impotência — ou, para os mais críticos, de conivência.
Comando Vermelho (CV): Nascido nas prisões cariocas nos anos 1970, o CV domina comunidades inteiras e mantém um arsenal militar capaz de rivalizar com pequenas forças armadas. Recentemente, passou a utilizar drones armados para atacar policiais durante operações.
Primeiro Comando da Capital (PCC): Originário de São Paulo, expandiu-se por todo o país e mantém ramificações no Paraguai, Bolívia e agora na Argentina — país que, diferente do Brasil, já classificou o grupo como organização narcoterrorista.
Ambos financiam suas atividades por meio do tráfico de drogas, roubo de cargas, extorsão e lavagem de dinheiro. Agem como empresas criminosas, com hierarquia, códigos internos e poder territorial.
O problema é que, enquanto os países vizinhos reconhecem o perigo e agem com firmeza, o Brasil parece relutante em encarar a realidade. A Argentina, sob o governo de Javier Milei, classificou recentemente o PCC e o CV como organizações narcoterroristas, adotando medidas duras e cooperação direta com o FBI.
No Brasil, porém, o silêncio do Planalto é ensurdecedor. O governo evita o termo “terrorismo” e insiste em tratar as facções como “questões sociais”. Lula chegou a dizer que os traficantes são vítimas dos usuários de drogas, uma declaração que chocou até aliados e evidenciou o abismo entre a narrativa governamental e o drama das comunidades dominadas.
A omissão também tem eco no Supremo Tribunal Federal. Em plena pandemia, o ministro Edson Fachin proibiu operações policiais nos morros do Rio, sob o argumento de proteger os moradores. A medida, embora bem-intencionada, abriu caminho para o fortalecimento das facções, que reocuparam territórios, ampliaram o tráfico e reforçaram seus arsenais.
Hoje, o Comando Vermelho não é apenas uma facção carioca — é uma força paramilitar espalhada por Bahia, Ceará, Pará e Amazonas, com domínio consolidado em regiões estratégicas. E, ironicamente, muitos desses Estados são governados pelo próprio PT.
Enquanto isso, o governo federal tenta remediar o desastre com medidas simbólicas. Após a megaoperação, enviou dois emissários ao Rio para anunciar a criação de um “escritório emergencial de combate ao crime organizado”. Mas o gesto soa mais como encenação política do que como plano de ação real.
O Brasil vive uma guerra urbana que não se declara oficialmente. E o Estado, que deveria liderar a resistência, parece hesitar diante dos que o desafiam. A omissão custa caro: cada recuo do governo significa mais poder para o crime, mais medo nas comunidades e mais covas abertas nos morros.
Enquanto o Palácio do Planalto debate semânticas, o crime organizado se arma, se financia e se fortalece. E o povo, entre o tiroteio e o silêncio oficial, continua refém — não apenas das balas, mas da inércia de quem prometeu governar para todos e hoje governa olhando para o outro lado.
No fim, o que se vê é um governo acuado diante de sua própria indecisão — um Estado que fala em “inclusão social” enquanto perde território para o crime. O país precisa urgentemente de uma política de segurança que una inteligência, presença e coragem; não discursos, comitês e desculpas. A guerra já está nas ruas, nas escolas, nas favelas — e fingir que ela não existe é apenas mudar o nome do problema, sem jamais enfrentá-lo.
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