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Editorial Favas Contadas

A harmonia dos Poderes: independentes do povo, mas perfeitamente afinados entre si

“Nenhum poder é absoluto — dizia Montesquieu —, mas alguns aprendem a parecer moderados enquanto controlam tudo.”

29/10/2025 às 21h04
Por: Redação GH1 Fonte: Arthur Feitosa
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A harmonia dos Poderes: independentes do povo, mas perfeitamente afinados entre si

Há algo de exemplar na estabilidade política do Piauí. Exemplar no sentido quase museológico, porque se trata de uma estabilidade imóvel, paralisante — uma paz institucional que não nasce da maturidade democrática, mas da obediência coletiva.
Os Poderes da República, que deveriam se equilibrar em permanente tensão, por aqui resolveram viver em concubinato.

A Assembleia Legislativa, por exemplo, perdeu há muito a vocação para o debate. Transformou-se numa repartição auxiliar do Executivo — eficiente em aprovar, rápida em carimbar, diligente em não questionar.
O contraditório, que deveria ser alma do Parlamento, foi substituído por um silêncio bem remunerado.
O parlamentar médio tornou-se corretor de emendas e distribuidor de favores.
A independência virou bravata, e o discurso oposicionista — raríssimo — tornou-se peça de museu, exposta como lembrança de um tempo em que discordar ainda era permitido.

Mas seria injusto atribuir toda a culpa a um só poder.
A engrenagem da subserviência institucional tem uma orquestra completa, e o Tribunal de Contas do Estado desempenha, nesse concerto, o papel de maestro complacente.
Criado para fiscalizar, o TCE-PI converteu-se num reduto aristocrático de ex-políticos e parentes de governantes. Alguns conselheiros já administraram os mesmos recursos que hoje deveriam examinar — outros, compartilham lares, sobrenomes e interesses com aqueles cujas contas avaliam.

É a perfeita contradição republicana: quem deveria julgar o gasto público, muitas vezes, julga o próprio gasto ou o do cônjuge.
Como esperar isenção onde há vínculos de sangue e compromissos partidários?
O resultado é previsível: contas “aprovadas com ressalvas” — a ressalva servindo apenas como véu para a conivência.

Esse modelo não apenas desmoraliza o controle público, mas o torna desnecessário.
O Tribunal de Contas, da forma como existe, é um ornamento dispendioso.
Sua credibilidade, outrora sustentada por técnicos e auditores sérios, hoje cede espaço a um sistema de indicações políticas que transforma o órgão em pousada vitalícia para aliados fiéis.

Se houvesse compromisso real com a transparência, as vagas de conselheiro seriam preenchidas mediante concurso público rigoroso, com critérios técnicos e imparciais.
Mas, evidentemente, isso significaria devolver ao controle público sua verdadeira função — e o poder raramente abre mão de vigiar a si mesmo.

Entretanto, há um elemento muitas vezes esquecido nessa equação: a própria população.
A perpetuação desse modelo de submissão institucional também encontra raízes na apatia cívica de uma sociedade que ainda não compreendeu, plenamente, a importância do voto.
O voto é o único instrumento legítimo de defesa da cidadania, a única ferramenta pacífica capaz de romper o círculo vicioso entre poder e conveniência.
Mas, quando o eleitor vota por costume, por dependência ou por desinformação, acaba legitimando a própria servidão — e transformando o ciclo eleitoral numa repetição ritualística de promessas e desencantos.

O resultado é a manutenção do mesmo paradoxo: reclama-se do poder, mas reconduz-se o mesmo poder à cadeira.
Enquanto não houver consciência do voto como ato de soberania — e não de submissão —, o Estado continuará sendo governado por quem confunde mandato com propriedade.

A tragédia, portanto, não é apenas política, mas também cultural.
Os Poderes funcionam com perfeição — mas apenas para garantir a si próprios.
O Executivo governa sem freios, o Legislativo aplaude com entusiasmo e o Tribunal de Contas certifica com gratidão.
Tudo em perfeita harmonia, como manda a Constituição.

Enquanto isso, o Piauí segue exportando sua principal riqueza — seus jovens — não por falta de afeto pela terra, mas por falta de perspectiva.
O Estado que deveria ser instrumento de emancipação tornou-se um obstáculo burocrático à esperança.

E assim permanece a “harmonia entre os Poderes”:
independentes do povo, mas absolutamente afinados entre si — e sustentados, paradoxalmente, pela própria inércia de quem os elege.

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Sobre Arthur Feitosa - Executivo e articulista político do portal Gazeta Hora1
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