
Ela surgiu nas redes sociais com o codinome “Japinha do CV”, vestida em roupas camufladas, empunhando armas e ostentando o poder que o tráfico promete — e cobra caro. Penélope, como também era conhecida, não passou dos 25 anos. Seu nome virou símbolo da ilusão que seduz parte da juventude pobre do Rio de Janeiro: a crença de que o crime oferece status, respeito e pertencimento. No entanto, seu fim foi o mesmo de tantos outros que trilham esse caminho — trágico, inevitável e precoce.
A jovem, segundo a Polícia Civil do Rio de Janeiro, era considerada uma “figura de confiança” dentro do Comando Vermelho (CV). Atuava na proteção de rotas de fuga e pontos estratégicos de venda de drogas no Complexo da Penha, uma das áreas mais conflagradas do Estado. Sua imagem armada, compartilhada em redes sociais, tornou-se a personificação da mulher que o tráfico transformou em soldado — um rosto feminino na linha de frente de uma guerra urbana que o Estado ainda não venceu.
O caso de Penélope escancara um fenômeno social cada vez mais visível: a glamourização da criminalidade. No Instagram e no TikTok, jovens exibem armas, dinheiro, roupas de marca e carros de luxo, enquanto os algoritmos transformam o crime em espetáculo. Essa estética da marginalidade mascara a violência real das favelas, onde crianças crescem ouvindo rajadas de fuzil e mães enterram filhos em silêncio.
Especialistas em segurança pública e comportamento social afirmam que a “Japinha do CV” não foi exceção — foi produto de um sistema que abandona a juventude antes mesmo que ela tenha escolhas reais. O tráfico se tornou a única escola acessível a muitos jovens de periferia, ensinando que o poder se conquista pelo medo e que a morte é parte natural do ofício.
Na linha de frente, Penélope não tinha treinamento militar formal. Era usada como peça de um tabuleiro letal, muitas vezes para distrair ou atrair a atenção das forças de segurança durante confrontos. O crime organizado explora até o imaginário feminino: transforma a mulher em símbolo de lealdade e coragem, mas também em escudo humano, em corpo descartável.
O destino da “Japinha” foi selado na megaoperação que paralisou o Rio de Janeiro — a mais letal da história, com mais de 130 mortos. Ali, entre os becos e vielas onde o poder do Estado termina e o das facções começa, Penélope tombou como tantas outras vidas jovens — vítimas e cúmplices de uma engrenagem que consome tudo.
Sua morte, no entanto, precisa ser mais que um número no balanço policial. É um alerta brutal sobre o fracasso coletivo de uma nação que perdeu o controle sobre seus próprios filhos. Que tolera a ausência do Estado, mas se choca com o resultado: meninos e meninas transformados em soldados de guerra dentro de sua própria cidade.
No fim, quem sofre é sempre o mesmo rosto: o das mães. Mulheres que agora choram diante de corpos vestidos com as roupas que o tráfico deu, sem saber se lamentam o crime ou o destino. Porque o crime, ao contrário do que prometem as redes, não empodera — escraviza, corrompe e mata.
O caso da “Japinha do CV” não deve ser lembrado pela imagem da mulher armada, mas pela história da jovem perdida num país onde o Estado é ausente, a violência é onipresente e o futuro é uma miragem entre o morro e o cemitério.
BRASIL Brasil - A engrenagem da escassez: como o poder se alimenta da miséria
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