
O nome dele é Edgar Alves de Andrade, mas nas ruas do Rio é conhecido como Doca — ou, para os íntimos do crime, Urso. Aos 55 anos, esse homem de aparência discreta é hoje um dos nomes mais temidos do país. Líder da chamada “Tropa do Urso”, Doca comanda com mão de ferro o tráfico no Complexo da Penha, mas seu domínio vai muito além dos becos e vielas: ele é o cérebro de uma máquina de guerra que desafia abertamente o Estado e dita suas próprias leis dentro das favelas.
Em meio à megaoperação das polícias Civil e Militar que deixou pelo menos 64 mortos, 81 presos e 93 fuzis apreendidos, Doca voltou a protagonizar o noticiário — não por ter sido capturado, mas exatamente por ter escapado mais uma vez. O homem mais procurado do Rio segue foragido, como se zombasse da estrutura de segurança pública que mobilizou 2,5 mil agentes, helicópteros, blindados e inteligência integrada.
Mas quem é esse criminoso que transforma cada operação policial em uma verdadeira guerra urbana? Doca é descrito pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) como um dos principais líderes do Comando Vermelho (CV), com poder decisório sobre territórios estratégicos como Penha, Gardênia Azul, César Maia e Juramento. Segundo promotores do GAECO, ele não é apenas um chefe local — é parte da cúpula da facção, responsável por expandir o império vermelho em áreas antes dominadas pela milícia.
A lista de crimes atribuídos a Doca é digna de um tribunal internacional: mais de cem homicídios, desaparecimento de moradores, execuções sumárias e até o mandato da execução de três médicos na Barra da Tijuca, em 2023 — assassinados por engano, confundidos com milicianos. O grau de crueldade é proporcional à sua frieza estratégica. Doca não suja as mãos: ordena, manda, pune e lucra. É o tipo de criminoso que age como um empresário do crime, com planejamento e hierarquia.
Nas investigações da Polícia Civil, Doca é visto como o arquiteto da guerra entre facções, um homem que usa drones lançadores de granadas, coordena invasões e financia a compra de fuzis importados. Sua tropa usa símbolos de urso em coletes e muros grafitados — uma estética de poder que transforma o medo em marca registrada. O “Urso” virou lenda viva: o inimigo invisível que a polícia nunca alcança.
Eis o paradoxo brutal do Rio de Janeiro: enquanto o Estado exibe pilhas de fuzis apreendidos e dezenas de corpos estendidos, o verdadeiro alvo segue livre, protegido por um sistema de informação e corrupção que parece saber de cada passo da polícia. A pergunta que ecoa nos bastidores é incômoda — houve vazamento? Como Doca desapareceu antes da chegada das tropas, se a operação envolvia sigilo e planejamento de semanas? Coincidência ou aviso prévio?
É inegável que há brechas estruturais no combate ao crime organizado. Quando o principal líder de uma facção escapa incólume de uma operação desse porte, a mensagem é devastadora: o poder paralelo está vencendo a guerra da inteligência. A Penha e o Alemão, alvos da operação, são hoje laboratórios do fracasso do Estado. Nenhum drone, blindado ou fuzil recuperado compensa o fato de que o comando do crime continua intacto.
O Disque Denúncia oferece R$ 100 mil de recompensa por informações que levem à captura de Doca — o mesmo valor pago por Fernandinho Beira-Mar, preso há duas décadas, mas ainda reverenciado dentro do CV. A equivalência do prêmio revela o tamanho do perigo: Doca é o novo Beira-Mar, com a diferença de que está em plena atividade, ditando ordens, financiando guerras e multiplicando mortos.
Enquanto a população do Rio se esconde atrás de portas e janelas, o tráfico exibe seu arsenal e sua moral bélica. Cada operação se transforma em batalha, e cada fuga como a de Doca soa como um grito de impunidade. O “Urso” segue solto, o Estado ferido, e o Rio, mais uma vez, refém de um sistema que finge combater o crime, mas não consegue capturar o seu rei.
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