
Nesta terça-feira (28/10), o Comando Vermelho (CV) foi alvo de uma das mais brutais intervenções policiais já vistas no Rio de Janeiro — a operação não apenas expôs, mas escancarou a fratura exposta do crime organizado em solo carioca. A cidade-campo de batalha revela que o Estado perdeu o monopólio da violência em favela após favela, e que o CV assumiu, em muitos morros, o papel de Estado paralelo: patrulhando, traficando, aterrorizando.
Segundo levantamento oficial, 64 pessoas morreram durante a ofensiva: o número inclui quatro agentes policiais e dezenas de suspeitos. Além, uma megaoperação mobilizou cerca de 2 500 agentes para cumprir mandados nos complexos da Penha e do Alemão — símbolo da escala de força necessária para enfrentar essa facção. O último balanço informava 81 prisões até agora.
Mas os números, por si só, não bastam. O que elas revelam é que estamos numa guerra urbana — e que os traficantes do CV se comportam agora como milícia, com armas de guerra, uso de drones, blindados, rádios comunicadores, entenda-se: logística de combate. Eles não são “traficantes comuns” — são exércitos insurgentes dentro da cidade.
Enquanto a polícia avança, o chão da cidade treme. Moradores viram reféns de barricadas incendiadas, tiroteios, drones sobrevoando o céu. Escolas fechadas. Ônibus parados. A operacionalização da violência transformou comunidades inteiras em zonas de guerra. O cidadão comum, o trabalhador, a mãe que leva o filho para a escola — todos ficam à mercê deste combate que, no fim, pouco lhes perdoa.
No centro deste conflito está o Estado brasileiro, fragilizado, acuado. O Rio hoje escancara que, se a União e o governo estadual não estiverem alinhados e prontos, o crime organizado avança com rapidez assustadora. O governador do estado fez o que muitos evitam: afirmou que o governo federal o deixou “sozinho”. E afirmou que pedidos de blindados e GLO (Garantia da Lei e da Ordem) foram negados.
O ministério responsável — Ministério da Justiça e Segurança Pública — reagiu dizendo que todos os pedidos do estado para emprego da Força Nacional de Segurança Pública foram atendidos desde 2023: 11 solicitações aceitas. O que se lê nas entrelinhas é a omissão ou a incapacidade do governo federal de se envolver de forma decisiva — quando se lida com facções que se equipam como “exércitos”. O reflexo político dessa omissão não deverá ser pequeno.
A oposição, por sua vez, não hesitava: acusou o governo federal de negligência — ou conivência — diante da escalada de poder das facções criminosas. Para muitos analistas, há um descompasso entre discurso e ação. A promissora “Nova Política de Segurança” do governo ficou longe de penetrar nos becos das favelas onde o CV manda.
Especialistas em segurança pública apontam que operações desse tipo são necessárias — mas insuficientes. A estratégia de depender de ofensivas militares-policiais nas favelas, sem políticas estruturais de inclusão, infraestrutura, cidadania e reforma do sistema de segurança, falha repetidamente. É como tentar apagar incêndios com gasolina, enquanto a lenha está sendo empilhada.
Para o morador da Penha, do Alemão ou de qualquer comunidade sob domínio da facção, o impacto é imediato e assustador. Arrancado de casa por um tiroteio, transportado pela sombra de drones, com ruas bloqueadas, ônibus desviados, escolas fechadas — essa é a rotina quando o poder paralelo decide resistir. E essa rotina, que deveria ser exceção, virou regra.
A ação continua, oficialmente, “em andamento”. Mandados seguem sendo cumpridos, buscas prosseguem. A paz provisória permanece frágil — e a guerra latente está longe de acabar. Este tipo de intervenção cria mais visibilidade, gera manchetes, mas não retira sozinho o território que o crime domina. Sem presença permanente, o vazio será preenchido.
Se o CV foi pressionado, ele fez aquilo que sabe: reagir com brutalidade, provocar o Estado, mostrar que domina o terreno. O Estado, por sua vez, repete o ciclo de ataque-retaliação-retaliação. Mas é preciso mais do que isso: é necessário retomar o monopólio da violência, restabelecer o papel do Estado e reconfigurar a estrutura de segurança pública de forma definitiva.
A pergunta que fica pairando no ar: quantas vidas queremos sacrificar para reafirmar a soberania do Estado? Quantas vezes atenderemos à tragédia antes de reconhecer que o crime organizado não é “pacificável” apenas com mais operações? O Rio grita sua resposta — em cartuchos, drones, barricadas e sangue. Essa guerra urbana exige coragem, estratégia e, sobretudo, uma real vontade política para reconstruir territórios, direitos e cidadania.
Thiago do Nascimento Mendes, conhecido como “Belão do Quitungo”, foi preso na manhã desta terça (28/10) na comunidade da Chatuba da Penha, no Complexo da Penha, Zona Norte do Rio. Ele era apontado como o chefe da comunidade do Quitungo, respondendo por tráfico de drogas, comércio de armas e confrontos com quadrilhas rivais.
Edgar Alves de Andrade, conhecido como “Doca” ou “Urso”, também era alvo da operação — considerado uma das principais lideranças do Comando Vermelho no Rio de Janeiro, com dezenas de mandados de prisão e investigado por mais de 100 homicídios.
Além desses, o balanço preliminar cita outros nomes como Pedro Paulo Guedes (“Pedro Bala”), Carlos Costa Neves (“Gadernal”) e Washington Cesar Braga da Silva (“Grandão”) dentre os alvos da investigação.
A operação mobilizou cerca de 2.500 agentes para cumprir mais de 50 mandados de prisão (algumas fontes indicam 51) e mais de 100 mandados de prisão + 150 de busca e apreensão.
Foram apreendidos 75 fuzis segundo reportagem da Exame. Outro levantamento aponta 31 fuzis, duas pistolas e nove motos.
A nota do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) informa apreensões amplas no período recente: 72 fuzis, 172 armas curtas, quase 14.000 munições, mais de 3.000 veículos recuperados, além de toneladas de drogas.
Uso de drones, blindados, barricadas incendiadas, helicópteros e veículos de demolição foram citados como parte da logística de combate.
O relatório da Exame cita o ex-secretário nacional de Segurança Pública José Vicente Silva Filho, que vê na operação “a repetição de ciclos de ataque-retaliação” e alerta que sem estrutura permanente a intervenção pode não surtir o efeito necessário.
Em matéria do Estado de Minas, o especialista Luiz Flávio Sapori afirma que, apesar da escala da ação, “como a polícia vai sair dos complexos, a realidade vai voltar à normalidade nas próximas semanas” — ou seja: sem presença contínua, o domínio da facção tende a se recompor.




















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