
O tradicional prato feito com arroz e feijão vem perdendo espaço para o macarrão nas mesas do Brasil. Um levantamento da VR, com base em mais de 5 milhões de notas fiscais, mostra que o consumo de massa cresceu 1.300% entre 2023 e 2025. A alta foi bem maior que a do arroz e do feijão, pressionados por preços instáveis e quebras de safra, como as enchentes no Rio Grande do Sul. Enquanto isso, o trigo usado no macarrão foi favorecido por safras globais recordes, o que manteve o preço da massa estável.
Esse descolamento no bolso das famílias foi decisivo. O arroz subiu quase 35% entre 2023 e 2024, e o feijão, mais de 11%. Já o macarrão registrou queda de 2,5% no mesmo período. Para muita gente, além de mais barato, ele também é prático e rápido no preparo. Dados da Embrapa confirmam que o consumo de arroz e feijão já vinha caindo há décadas: em 1997, cada brasileiro comia quase 49 kg de arroz por ano; em 2024, o número caiu para 28,5 kg. O feijão seguiu a mesma linha: em 1967, a média era de 26,5 kg anuais, mas em 2024 ficou em apenas 13,2 kg.
Pesquisas da UFMG já previam essa tendência: em 2025, a maioria dos brasileiros deixaria de comer feijão de forma regular. Entre os fatores apontados estão o preço instável, a rotina corrida — especialmente no caso das mulheres, que acumulam jornada dupla de trabalho — e a popularização de alimentos ultraprocessados. O resultado é que, em poucos anos, o prato símbolo da cultura brasileira foi substituído por opções mais rápidas, mas menos completas do ponto de vista nutricional.
A mudança preocupa produtores e especialistas em saúde. Para Marcelo Lüders, presidente do Instituto Brasileiro do Feijão e Pulses (Ibrafe), a queda no consumo do feijão ameaça não só a saúde, mas também a economia e até a soberania alimentar. Estudos mostram que comer feijão regularmente reduz riscos de obesidade e doenças crônicas, além de gerar renda para milhares de famílias produtoras. “Abrir mão do arroz com feijão é abrir mão de um patrimônio nacional”, resume Lüders.
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