
Ainda no litoral do Piauí, onde a população da planície litorânea — e os poucos visitantes que ainda se arriscam em buscar refúgio — enfrentam problemas que vão desde a falta de abastecimento de água, instabilidade na energia elétrica, ruas e avenidas às escuras, acesso precário às pousadas e, sobretudo, a insegurança pública, surge uma cena que simboliza o contraste gritante do Estado: o governador Rafael Fonteles inaugurando uma praça no Renascença, em Teresina.
Mas, ao agir como prefeito da capital, o comandante em chefe do Piauí, esquece que governa um o terceiro maior Estado do Nordeste em território, com uma área de aproximadamente 251.577 km2. Um Estado que fica atrás apenas da Bahia e do Maranhão, mas extremamente carente que e sofre há 20 anos com o abandono.
É nesse momento que uma pergunta inevitável incômda se recusa a calar: quais as grandes obras que o governador realizou no Piauí? Onde estão as rodovias 100% construídas ou reconstruídas, prometidas em campanha?
Enquanto a propaganda oficial fala em “Piauí do futuro”, o presente é de escassez e abandono. No Sul do Estado, cidades inteiras vivem o drama da seca urbana. Em Gilbués, a água sequer pinga nas torneiras. Em São Raimundo Nonato, o povo continua a migrar para o Centro-Oeste em busca de trabalho e dignidade. O fenômeno da migração virou o retrato mais cruel da falência das políticas públicas: o produto que o Piauí mais exporta hoje é o próprio piauiense.
Brasília, suas cidades satélites e municípios do Goiás estão cheios de histórias de famílias que deixaram o Piauí para trás, empurradas pela falta de oportunidades. Em Santo Antônio do Descoberto, quase metade da população é formada por piauienses que foram embora — não por escolha, mas por necessidade.
E enquanto isso, o governador viaja. Uma semana está em Pequim, na outra em Berlim, e quando retorna ao Estado, inaugura uma praça, um letreiro turístico, ou posa para fotos sob o discurso da modernidade. Mas o que há de moderno num Estado onde falta o básico?
O governo prometeu porto onde carreta tomba e navio não atraca, hidrogênio verde que amarela a cada dia, e grandes investimentos que nunca saíram do papel. O que não falta é marketing e bandeiras — e, recentemente, uma polêmica que escancarou a distância entre o governo e o povo: as bandeirolas milionárias. Uns dizem que custaram R$ 13 milhões, o governo nega, fala em R$ 200 mil. Mas enquanto as notas fiscais não aparecem, o imaginário popular já consolidou o símbolo do desperdício.
Em quase três anos de gestão, Rafael Fonteles teve tempo e recursos para transformar o Piauí. Mas o que se vê é um Estado sem obras estruturantes, sem geração de emprego e sem rumo econômico definido. O discurso da inovação virou pano de fundo para a estagnação.
O tempo, porém, corre rápido. E a contagem regressiva para o fim do mandato já começou. Ainda há uma chance para que o governador mostre que o seu governo pode ser mais do que a continuidade do atraso — que pode, enfim, representar um fio de esperança real, não de propaganda.
Mas, para isso, é preciso descer do pedestal da autopromoção e olhar de frente para o Piauí esquecido, aquele que não aparece nos vídeos de marketing: o Piauí do sertão seco, do litoral às escuras e das famílias que partem porque já não veem futuro onde nasceram.
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