
Francelino Pereira é o homenageado da semana na coluna Gigantes do Direito. Nascido em Angical do Piauí, no coração do Médio Parnaíba, a cerca de 124 quilômetros de Teresina, ele é um daqueles brasileiros que provam que talento, persistência e boa conversa abrem portas até nos corredores mais fechados da política nacional. Advogado, político, professor e homem de ideias, Francelino levou o nome do Piauí para Minas Gerais — e de lá, ganhou o Brasil.
Francelino nasceu em 1921, quando o Brasil ainda engatinhava em modernização e o sertão piauiense era um recanto de simplicidade e sabedoria popular. Conta-se que, ainda menino, gostava de ouvir as conversas na praça de Angical, onde os mais velhos discutiam política como se fosse futebol. Daquela convivência nasceu o gosto pelo debate e a curiosidade por entender as engrenagens da vida pública.
Depois de concluir os estudos básicos, fez as malas — ou melhor, a mala, porque estudante do interior não tinha mais do que uma — e partiu para Minas Gerais, onde o destino o esperava de braços abertos. Lá, formou-se em Direito, profissão que seria o alicerce de toda sua trajetória. O bacharel em leis logo descobriu que tinha vocação para a palavra, para o argumento e, sobretudo, para a política.
De advogado a parlamentar, o passo foi natural. Francelino se elegeu deputado federal por várias legislaturas e, no plenário, ganhou fama de bom orador, daqueles que sabiam usar o português com elegância e firmeza. Era o tipo de político que falava com autoridade, mas também com humor, sem perder o respeito nem a leveza. Sua inteligência afiada e o jeito mineiro de “chegar mansinho” abriram caminho para o topo da política nacional.
Durante o regime militar, Francelino se tornou uma das principais lideranças da Arena, o partido que dava sustentação ao governo. Ocupou cargos de destaque, participou de grandes articulações e, em 1979, foi escolhido para governar Minas Gerais. Para um piauiense nascido em Angical, governar o segundo estado mais populoso do país era algo como escalar o Everest — e ele o fez com elegância e competência.
Como governador de Minas, enfrentou um período de transição política e desafios econômicos. Mesmo com limitações, deixou marcas importantes: investiu em infraestrutura, educação e modernização administrativa, e foi lembrado por manter um diálogo constante com prefeitos e lideranças regionais. Era um homem de conversa franca e olhar pragmático — sabia que governar exigia mais escuta do que discurso.
Mas Francelino não parou por aí. Com o fim do mandato, retornou à política federal, sendo eleito senador por Minas Gerais nos anos 1990. No Senado, manteve a elegância e o humor que o caracterizavam. Não era dado a brigas nem a discursos inflamados, mas sabia fazer política com uma habilidade rara — bastava uma conversa reservada e um sorriso para convencer até o mais teimoso adversário.
Curiosamente, apesar de ter se tornado um ícone mineiro, nunca deixou de se orgulhar das origens piauienses. Quando perguntavam de onde vinha seu talento para a política, respondia brincando: “Do calor de Angical e da paciência mineira”. E era exatamente isso que o definia — o calor humano e a paciência estratégica.
Homem de letras e ideias, Francelino também ocupou cadeira na Academia Mineira de Letras, onde demonstrou seu lado mais reflexivo e intelectual. Ali, o político dava lugar ao pensador, ao homem que via o Direito não apenas como instrumento jurídico, mas como expressão de civilidade, diálogo e justiça.
Entre os colegas, era lembrado pelo bom humor, pela pontualidade e pelo respeito ao contraditório. Francelino Pereira sabia discordar sem ofender — qualidade rara na política de qualquer tempo. Talvez por isso tenha atravessado tantos governos, regimes e décadas sem perder o prestígio nem o respeito.
Faleceu em 2017, aos 96 anos, deixando uma biografia digna de aplausos e uma história que inspira novos advogados e políticos. De Angical a Belo Horizonte, do sertão piauiense aos gabinetes do poder, Francelino escreveu uma história de sucesso, trabalho e sabedoria.
Seu grande legado é o exemplo de que a política pode ser exercida com inteligência, serenidade e espírito público. Francelino Pereira provou que o bom político é aquele que sabe ouvir, entender e agir com equilíbrio. E assim, o menino de Angical se tornou um gigante do Direito e da política brasileira, lembrado com orgulho por dois estados e admirado em todo o país.
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