
No tabuleiro político do Piauí, uma disputa silenciosa se desenrola entre duas gerações do mesmo projeto de poder. De um lado, o ministro Wellington Dias, patriarca da hegemonia petista que domina o estado há mais de vinte anos. Do outro, o governador Rafael Fonteles, seu sucessor — e agora, ao que tudo indica, seu desafeto mais promissor.
O plano inicial era simples: garantir continuidade sem ruptura. Wellington apostou em Fonteles como a ponte entre o velho petismo de militância e a nova gestão técnica, moderna e bem-apresentada aos olhos do empresariado. O então secretário da Fazenda, jovem e articulado, parecia o nome ideal para manter o grupo no poder sem ameaças internas.
Mas o tiro parece ter saído pela culatra.
Desde os primeiros dias no Palácio de Karnak, Rafael Fonteles tem dado sinais de que não pretende ser coadjuvante de ninguém. Aos poucos, vem reorganizando o campo de alianças, substituindo históricos quadros da base de Wellington por nomes de sua estrita confiança. A entrada do ex-juiz federal Washington Bandeira no núcleo político é um símbolo dessa nova fase: um governo técnico, centralizado e blindado.
O preço da autonomia
Durante os oito anos em que comandou a Secretaria da Fazenda, Fonteles foi o cérebro por trás da política de expansão fiscal do governo. Conduziu empréstimos vultosos, manteve as finanças sob controle aparente e pavimentou o caminho para sua eleição. Agora, o estado colhe os efeitos colaterais: uma dívida crescente e a preocupação com a sustentabilidade das contas públicas.
Mesmo assim, Rafael emergiu como a figura política mais organizada e ambiciosa da nova geração petista. Não é mais o jovem secretário leal a Wellington, mas o novo cacique que enxerga além das fronteiras do Piauí.
Herança e revanche
Há um componente simbólico nessa disputa que escapa ao noticiário cotidiano. Rafael é filho de Nazareno Fonteles, um dos fundadores do PT piauiense e figura de grande respeito interno, mas que nunca ocupou o espaço que ajudou a construir. Nos anos de ascensão de Wellington Dias, Nazareno foi mantido à margem, como quem atrapalha o roteiro de um líder em formação.
Agora, o tabuleiro se inverte. É o filho de Nazareno quem ameaça o legado de Wellington — uma reedição familiar de poder e ressentimento.
Ambição nacional
Fonteles sabe o que quer. Discreto, metódico e de fala calculada, o governador já mira uma projeção nacional. No entorno do Planalto, circula o rumor de que ele seria um nome bem-visto para o Ministério da Fazenda, caso Lula conquiste um novo mandato. Seu perfil técnico, somado à capacidade de comunicação e gestão de imagem, o coloca como um dos petistas mais promissores fora do eixo Rio–São Paulo.
Wellington, por sua vez, tenta preservar sua influência. Como ministro do Desenvolvimento Social, segue sendo peça importante no governo Lula, mas já não detém o mesmo controle sobre o diretório estadual nem sobre a base de sustentação que o manteve no poder por quatro mandatos.
O fim do ciclo
O que se observa é o início de uma transição de poder dentro do próprio PT. Wellington, o construtor da hegemonia, começa a ser empurrado para o papel de referência histórica. Rafael, o discípulo rebelde, quer o protagonismo — e o faz com método, ambição e frieza estratégica.
No Piauí, como na política nacional, os grandes rompimentos raramente vêm de fora. Vêm de dentro, das lealdades que amadurecem demais até apodrecer.
E talvez Wellington Dias esteja descobrindo, da forma mais dura, que o limão que tentou transformar em limonada virou o veneno do próprio império político que criou.
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