
Mais uma vez — para variar, claro — o presidente Lula da Silva parece pronto para provar que coerência é artigo em extinção na política brasileira. O mesmo homem que, em campanha, subia em palanques inflamados e participava de debates dizendo que “indicar amigos para o Supremo é um retrocesso que a República já conhece bem”, agora parece disposto a dar mais um passo rumo ao passado que ele próprio condenava. Sim, Lula deve indicar Jorge Messias, o “Bessias”, aquele mesmo que levou o termo de posse para ele não ser preso no governo Dilma.
Em tempos de memória curta e discursos longos, é curioso lembrar as palavras do próprio Lula:
“Tentar mexer na Suprema Corte para colocar amigo, companheiro, partidário, é um atraso, é um retrocesso... e eu sou contra”.
Pois bem. Três anos, dois ministros amigos e uma caneta presidencial depois, o petista parece ter feito as pazes com o “retrocesso”. Afinal, já nomeou seu advogado pessoal, Cristiano Zanin, e o comunista de estimação, Flávio Dino. Agora, o próximo da fila é o 'devoto' Messias — não o de Nazaré, mas o de Pernambuco.
Aos 44 anos, Jorge Rodrigo Araújo Messias é o atual Advogado-Geral da União (AGU) e, curiosamente, também é evangélico. Um evangélico de esquerda, coisa rara — quase um ornitorrinco político. Formado em Direito pela UFPE, com mestrado e doutorado na UnB, Messias tem currículo de fazer inveja... a qualquer militante do PT. Foi subchefe para Assuntos Jurídicos no governo Dilma e hoje é o homem de confiança de Lula, o que, convenhamos, pesa mais que qualquer título acadêmico.
Bessias deve ser o segundo indicado de Lula mais jovem para o Supremo. Só perde para José Antonio Dias Toffoli, que foi guinado ao STF quando só tinha dado 41 voltas ao sol.
Mas é impossível não lembrar o episódio que o eternizou na crônica política nacional. Em 2016, quando o país fervia com a Lava Jato e Dilma tentava salvar o próprio mandato e a pele de Lula, foi ele, o “Bessias”, quem levou às pressas o termo de posse para Lula virar ministro e escapar das garras de Moro. A história não terminou bem, mas o apelido pegou — e agora o “Bessias” pode subir ao altar do Supremo.
Enquanto isso, a mídia finge que não vê. As mesmas vozes que outrora bradavam contra o aparelhamento das instituições agora se recolhem num silêncio constrangedor. Nenhum editorial inflamado, nenhuma manchete indignada.
O Senado, que deveria exercer o papel de contrapeso, parece mais um coro afinado com o Planalto: aprova tudo, reclama de nada e ainda tira foto sorrindo. Afinal, quem vai querer cutucar um Supremo que anda mais poderoso que o próprio Executivo?
E assim, a “República da Coerência” segue seu curso tragicômico. Lula, que um dia se apresentou como o defensor da ética e do equilíbrio institucional, agora distribui cargos no Judiciário como quem reparte ministérios entre aliados.
O Brasil, claro, assiste anestesiado — entre uma manchete de futebol e outra de reality show. E no fim, quando o “Bessias” vestir a toga, restará a pergunta que não quer calar:
Será que ele vai defender a Constituição... ou a conveniência?
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