
Política é mesmo uma arte de disfarces. O mineiro Magalhães Pinto já avisava: “política é como nuvem, você olha e ela está de um jeito; olha de novo e ela já mudou”. No Piauí, então, nem precisa esperar muito — muda antes mesmo do vento soprar. E o que mais se comenta nos corredores é o racha que se abriu entre o governador Rafael Fonteles e o senador Wellington Dias. O criador e a criatura agora se olham de canto de olho — e, como dizem os mais antigos, “quando o santo não bate, o milagre não acontece”.
Nos bastidores, há quem garanta que Fonteles e Wellington não dividem nem mesa de bar, quanto mais de poder. O pivô da confusão? O filho do “Índio” — que sonhou alto demais na hora de tentar cavar espaço no governo. Rafael Fonteles, com a frieza de quem já aprendeu a jogar o jogo, deu uma rasteira de mestre. E Dias, acostumado a distribuir cartas, teve que engolir o próprio baralho. Como se diz, “o poder não muda ninguém, apenas revela quem sempre foi um bom disfarçado”.
O clima azedou de vez. E agora, o senador Wellington Dias estaria afiando as lanças — ou melhor, acionando os “olheiros” que mantém dentro do Karnak. Há quem jure que o ex-governador tem acesso privilegiado a certas operações da Polícia Federal e anda soprando ventos perigosos na direção da Secretaria de Educação. Quando é o poder que está em jogo, vale tudo — até filho desonrar pai e aliado virar delator. No jogo do poder, ninguém joga limpo, só quem joga melhor.
A crise não se limita ao racha político no Karnak — ela respinga forte também na Secretaria de Saúde do Piauí, onde escândalos milionários vêm corroendo a imagem do governo. Desvios de recursos públicos, contratos superfaturados e licitações direcionadas resultaram em operações da Polícia Federal, com prisões de médicos, empresários e servidores públicos. As investigações apontam que empresas de fachada eram usadas para drenar verbas destinadas a hospitais e programas de atendimento básico. Enquanto a população enfrenta a falta de remédios e filas intermináveis nos hospitais, os bastidores revelam uma verdadeira organização criminosa disfarçada de gestão pública.
O mais grave é que o esquema de corrupção parece ter raízes antigas e ligações que atravessam gestões. Há suspeitas de que parte do dinheiro desviado da Saúde foi parar em campanhas eleitorais — o que explicaria o silêncio de muitos aliados e a resistência em abrir a “caixa-preta” da secretaria. Nos corredores do poder, comenta-se que a próxima fase da investigação pode atingir nomes graúdos do governo, inclusive assessores próximos ao Palácio de Karnak. E como o velho ditado ensina, “onde há fumaça, há fogo” — e o céu político do Piauí, que já estava carregado, agora ameaça desabar em tempestade de denúncias e delações.
Enquanto isso, a quebradeira anda solta. Nenhum construtor do governo consegue terminar obra nenhuma — todas atoladas em aditivos e calotes. Dizem que os cofres estão tão secos que até o eco do dinheiro se mudou de lá. As dívidas com agiotas, segundo os sussurros de bastidores, já somam mais de R$ 300 milhões. E a explicação? “Dinheiro de campanha passada e da próxima também”. Ou seja: o Piauí continua bancando o eterno ciclo eleitoral de sempre — mudam os rostos, mas o bolso é o mesmo.
Em meio a esse vendaval, Wellington Dias se recompõe com o talento de quem sabe que o jogo não acaba enquanto houver tabuleiro. Fonteles teria confidenciado que não pretende ser candidato ao Senado em 2030. Prometeu até apoiar Washington Bandeira ao governo — ou, quem sabe, abrir espaço para o “Índio” voltar ao trono do Karnak. Mas, convenhamos, promessa feita em política é igual palavra escrita na água: seca antes de chegar na margem.
Porque no fim das contas, no Piauí, a política é como o clima: previsível só no erro da previsão. E o céu anda tão carregado que, se chover, não será água — será sarcasmo pingando dos telhados do poder.
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