
Durante décadas, o Piauí figurou entre os estados mais pobres e esquecidos do país — um território onde o progresso parecia promessa eterna. Ainda assim, havia um orgulho coletivo que resistia à pobreza e à inércia: a excelência educacional.
Teresina se tornou referência nacional na formação de jovens talentosos, capazes de competir de igual para igual com os melhores estudantes do Brasil. E, no centro desse fenômeno, estava o Instituto Dom Barreto, símbolo máximo de mérito, disciplina e fé no poder transformador do conhecimento.
De suas salas e corredores saíram alguns dos nomes mais brilhantes da história recente do estado. Alunos que conquistaram vagas no ITA, IME, USP, Unicamp e em tantas outras instituições de prestígio. Era o retrato fiel do ideal piauiense: o da superação pela educação.
Entre esses ex-alunos, estão o atual governador Rafael Fonteles e boa parte de seus secretários e assessores. Todos formados sob o mesmo teto que ensinou ética, cidadania e compromisso com o bem comum. Por isso, a sociedade esperava deles algo maior — uma gestão inspirada na honestidade intelectual e na responsabilidade pública que o Dom Barreto sempre pregou.
Mas o que se vê hoje é o oposto.
De alunos exemplares a exemplos vergonhosos
Nos últimos meses, uma sucessão de denúncias, operações policiais e suspeitas de enriquecimento ilícito abalaram o governo e mancharam não apenas a imagem da atual gestão, mas também a reputação da mais respeitada instituição de ensino do estado.
É doloroso testemunhar a transformação de jovens que um dia simbolizaram o futuro promissor do Piauí em protagonistas de um espetáculo de ostentação e decadência ética.
Carros de luxo — Porsches, Ferraris, Lamborghinis — cruzam as ruas esburacadas de Teresina como troféus da corrupção institucionalizada. São jovens, muitos com menos de 40 anos, ostentando um padrão de vida inalcançável até mesmo para os maiores empresários do estado.
O contraste é obsceno: de um lado, servidores públicos mal pagos, profissionais de saúde sobrecarregados, professores desmotivados, comunidades sem saneamento; do outro, assessores milionários, cercados de mansões, viagens e notas de dinheiro vivo empilhadas como souvenirs do poder.
A cada nova operação, a vergonha se repete. E, junto dela, o silêncio cúmplice das autoridades.
Quando a inteligência se curva à ganância
Há algo de profundamente trágico neste enredo. As mesmas mentes treinadas para resolver problemas complexos e sonhar um Piauí melhor usaram sua inteligência não para servir, mas para se servir. Transformaram o conhecimento em ferramenta de dominação, e o poder, em atalho para o enriquecimento pessoal.
É o colapso moral de uma geração brilhante, que trocou o orgulho intelectual pela vaidade material.
E é impossível não lembrar, neste ponto, de Marcílio Rangel, o educador visionário que foi o coração e a alma do Instituto Dom Barreto. Sob sua liderança, o colégio se tornou sinônimo de excelência e caráter. Rangel acreditava que formar um aluno significava, antes de tudo, formar um cidadão — alguém guiado pela ética, pela humildade e pelo senso de dever coletivo.
Se vivo fosse, Marcílio Rangel certamente se envergonharia ao ver parte de seus ex-alunos — outrora promessas de transformação — sucumbirem à mesma mediocridade moral que ele tanto combateu.
O homem que dedicou a vida a despertar consciências jamais imaginaria que seu legado seria usado como vitrine por quem hoje despreza os valores que ele ensinou.
O que resta ao Piauí
Não é apenas um governo que se esfarela sob o peso das denúncias. É a esperança de um estado inteiro que se vê traída.
Quando até os mais preparados moralmente se rendem aos vícios dos medíocres, o que resta à sociedade senão o desalento?
Mas é preciso dizer em alto e bom som: o Instituto Dom Barreto não é responsável por isso. O que está sendo manchado não é a escola, mas o caráter de alguns que, formados em suas salas, escolheram trair seus próprios valores.
A instituição formou talentos; o poder corrompeu consciências.
É preciso separar o que o Dom Barreto representa — o esforço, o mérito, o compromisso com o saber — daquilo que esses “exemplos” transformaram em símbolo de escárnio público.
Que a vergonha desses episódios sirva de alerta: sem ética, nenhum diploma salva uma nação.
O Piauí não precisa apenas de inteligência — precisa de integridade. E talvez o maior desafio agora seja resgatar não apenas a confiança nas instituições públicas, mas também a honra de uma geração que tinha tudo para mudar o destino do estado — e preferiu enriquecer com ele.
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