
O telefonema da vergonha e o medo das sanções americanas
Depois de seis meses de silêncio constrangedor, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva finalmente teve coragem de ligar para Donald Trump. O telefonema, de 30 minutos, foi vendido pelo Planalto como um ato diplomático estratégico. Na verdade, foi uma medida tardia, forçada e movida mais por temor político do que por senso de Estado.
Durante meio ano, o governo brasileiro assistiu passivamente à imposição de tarifas de 40% sobre produtos nacionais. A medida, implementada pelos Estados Unidos, estrangulou setores do agronegócio e das exportações, especialmente café, carnes e castanhas. Inclusive o mel piauiense. Enquanto empresários cobravam ação, Lula preferia o silêncio — talvez para não contrariar o republicano, talvez por simples desatenção à gravidade do problema.
Agora, sob o peso do tarifaço e das críticas crescentes, Lula resolveu agir. Mas o motivo real do telefonema não parece ter sido o impacto econômico. Fontes do próprio governo admitem que o Planalto está mais preocupado com os efeitos da Lei Magnitsky, que permite aos EUA sancionar autoridades estrangeiras suspeitas de corrupção e atentado aos Direitos Humanos. Em outras palavras: a ligação teria sido motivada mais pelo medo de sanções a aliados do que pela defesa das exportações.
A conversa envolveu também Geraldo Alckmin, os ministros Mauro Vieira, Fernando Haddad e Sidônio Palmeira. Lula pediu diretamente a revogação das tarifas e o fim das sanções impostas a autoridades brasileiras tendo ao centro o ministro Alexandre de Moraes. Trump ouviu pacientemente, acenou com diplomacia, mas não se comprometeu com nada concreto. A sensação foi de que o Brasil falou tarde — e fraco.
A verdade é que a política externa lulista parece ter perdido o rumo. O Itamaraty virou mero figurante num governo em que decisões diplomáticas são pautadas por conveniências ideológicas e não por estratégia nacional. Enquanto o mundo discute energia, tecnologia e segurança global, o Brasil insiste em personalismos e improvisos.
A demora na reação ao tarifaço é sintomática. Lula esperou o estrago econômico se consolidar para, só então, buscar diálogo com Washington. E quando o fez, deu a impressão de agir mais por pressão interna do que por convicção. Foi um gesto de quem tenta apagar incêndios depois de meses jogando gasolina.
O episódio também escancara a contradição ideológica do governo. Lula sempre se apresentou como adversário político de Trump, símbolo do conservadorismo americano. Agora, é obrigado a procurá-lo em busca de trégua — não por diplomacia, mas por necessidade. E o faz com o discurso de “boa química”, tentando transformar constrangimento em cordialidade.
Enquanto isso, a economia brasileira paga a conta. As tarifas impostas pelos EUA já atingem diretamente produtores e exportadores, encarecem produtos e reduzem competitividade. O plano de socorro anunciado pelo governo, com crédito e isenções, soa como paliativo improvisado — incapaz de resolver um problema que nasceu da omissão diplomática.
No fundo, o telefonema entre Lula e Trump é menos um ato de diplomacia e mais um retrato de fraqueza. Mostra um Brasil que reage tardiamente, que teme mais as sanções pessoais do que o prejuízo nacional. E revela um presidente que confunde gesto político com gesto de salvação pessoal.
A ligação foi feita. As tarifas continuam. E o Brasil, mais uma vez, paga o preço da vaidade e da improvisação. Porque, no fim das contas, Lula não ligou para defender o país — ligou para se proteger de uma crise que ele mesmo ajudou a construir.
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