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Nordeste ESTADO AUSENTE

Uiraponga/CE e Torquato Neto/PI: quando o crime toma o lugar do Estado no Nordeste

Do interior do Ceará à zona Sul de Teresina, facções criminosas impõem o medo, expulsam famílias e transformam comunidades inteiras em territórios fantasmas — enquanto o poder público assiste, paralisado, à escalada do domínio paralelo

04/10/2025 às 23h11 Atualizada em 09/10/2025 às 10h12
Por: Douglas Ferreira Fonte: Especial para o Gazeta Hora1
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Distrito de Uiraponga virou uma “cidade fantasma” por imposição das facções criminosas - Foto: Reprodução
Distrito de Uiraponga virou uma “cidade fantasma” por imposição das facções criminosas - Foto: Reprodução

A nova face do terro no Nordeste

 

No Nordeste brasileiro, uma nova e terrível realidade se espalha: facções criminosas já não apenas traficam drogas ou disputam pontos de vendaelas expulsam famílias, determinam quem pode morar onde, picham fachadas com ordens de morte e transformam comunidades inteiras em territórios de medo.

O retrato mais brutal dessa tendência aconteceu em Uiraponga (distrito de Morada Nova, CE), onde centenas — segundo relatos, até milhares — de moradores foram forçados a abandonar casas, comércio e serviços públicos diante de um “ultimato” dos criminosos. Ruas antes vivas viraram cenário de cidade-fantasma.

A expulsão em massa foi motivada por uma disputa interna entre facções rivais (TCP e GDE) e usou violência, intimidação e o controle do território como instrumento de poder.


“Colonização pelo medo”

O que se vê em Uiraponga é o que especialistas chamam de “colonização pelo medo”: quando o monopólio da violência é usurpado por atores não estatais que passam a regular a vida cotidianaquem sai, quem fica e quais serviços funcionam.

Escolas foram esvaziadas, o posto de saúde suspendeu atendimento e a prefeitura decretou situação emergencial.


A reação do Estado incluiu prisões — alguns articuladores foram capturados após ações de inteligência — e operações de saturação policial, mas o dano social foi profundo e a retomada, lenta.


Não é caso isolado: o padrão se repete pelo Nordeste

Uiraponga foi o exemplo mais chocante, mas não o único.

 

Em Fortaleza, pichações com ameaças atribuídas ao Comando Vermelho (CV) exigiram que famílias deixassem condomínios em até 24 horas. Mensagens pichadas, placas de veículos expostas e ameaças diretas criaram pânico e fizeram famílias saírem às pressas.

Em Teresina (PI), moradores do Conjunto Habitacional Torquato Neto, na zona Sul da capital, vivem sob o domínio do medo imposto pelas facções criminosas. Eles relatam invasões, expulsões e agressões cometidas por grupos fortemente armados, em plena luz do dia, diante de todos. Dezenas de famílias foram coagidas a sair de suas casas — e saíram, obrigadas. A “lei do crime” é simples e cruel: “ou sai, ou sai”. Ninguém ousa desafiar a autoridade dos faccionados, pois todos sabem que dizer não é o mesmo que assinar um atestado de óbito. Além do terror armado, os criminosos impõem a lei do silêncio, uma espécie de omertà, o código de silêncio típico da máfia italiana, que proíbe qualquer colaboração com as autoridades e transforma o medo em regra de sobrevivência.

Até o fechamento dessa repotagem esse foi o últiimo caso de expulsão do Torquato Neto - Foto: Reprodução

A Secretaria da Segurança Pública tem tentado reagir, mas as operações policiais mostram resultados limitados. Apesar das prisões de líderes e soldados do crime, eles rapidamente retornam à atividade criminosa, o que reforça a sensação de impunidade e desamparo entre os moradores. O caso mais recente de expulsão forçada aconteceu há apenas dois dias: um morador foi obrigado a deixar o imóvel sob ameaça direta, sem opção de permanecer. O Torquato Neto tornou-se, assim, um retrato alarmante da ausência do Estado e do avanço do poder das facções no coração da capital piauiense.

O crime tenta impor uma “lei paralela” que regula moradia, silêncio e obediência.

relatos semelhantes na Paraíba, Maranhão e Bahia

Um caso emblemático ocorreu no Bairro das Indústrias em João Pessoa, onde moradores foram obrigados a deixar seus imóveis por imposição de criminosos que passam a lucrar com o aluguel das casas. A polícia chegou a realizar operação parar coibir esses abusos nos condomínios Canaã e São Rafael. Mas lá, assim como aqui, há prisões mas logo os faccionados estão soltos realizando novas expulsões.

Em Salvador, além de expulsar famílias de suas residências, o crime organizado impõe outra lei absurda: “a casa de porta aberta.” Facções criminosas determinaram que os habitantes de áreas controladas pelo tráfico devem manter as portas de suas casas destrancadas — uma ordem imposta pelo medo e sustentada pela violência.

O objetivo por trás dessa determinação é facilitar a fuga dos traficantes durante operações policiais. Com as portas abertas, os criminosos entram nas casas, se escondem e transformam moradores em escudos humanos, deixando comunidades inteiras reféns.

Segundo o jornal Correio 24h, ao menos 19 famílias já foram feitas reféns somente em 2025. O roteiro é o mesmo: disputa por território, uso sistemático do medo, ausência do Estado e respostas tardias das autoridades. A capital baiana se tornou mais um exemplo trágico de como o poder paralelo substitui o Estado onde ele falha em proteger.

Em São Luís do Maranhão a cena se repete e se agrava: facções criminosas controlam a venda de drogas, impondo medo e determinando quem fica e quem deve abandonar suas casas — um processo que já forçou famílias inteiras a deixarem seus lares na Vila Natal, bairro do Coroadinho. Relatos locais e imagens veiculadas pela imprensa mostram ruas vazias, confrontos armados e moradores em êxodo, e as autoridades estaduais promovem operações para prender líderes que vinham impondo regras e ameaças à população

A governança do medo na Vila Natal é típica de um território onde a ausência do Estado facilita a instalação de uma governança paralela: recrutamento de jovens, vigilância por rádios e celulares, e ordens que transformam moradores em reféns. Mesmo com prisões e ações policiais, especialistas e documentos locais indicam que o impacto social — postos de saúde e escolas afetados, comércio fechado e trauma coletivo — persiste, evidenciando a necessidade de ações integradas de inteligência e políticas sociais para reverter o quadro.


Como as facções estabelecem autoridade sobre vidas e espaços

As facções migraram de organizações de tráfico para organizações que exercem comando social.

Elas mantêm recrutamento local, divisão de tarefas (chefia, soldados, informantes), uso de redes sociais e pichações, e técnicas de governança violentaderrubar quem resiste, punir supostos informantes e demonstrar poder com vídeos e ameaças públicas.

Essa governança paralela cria zonas onde o Estado atua em segundo plano.

O caso de Uiraponga mostra que o objetivo final não é o lucro, mas o controle territorial.


O Estado reage — mas o combate precisa ser estrutural

A resposta policial existe, mas não é suficiente.

Houve prisões, operações conjuntas, reforço policial e ações com o Ministério Público e Defensoria, mas represálias pontuais não bastam.

Especialistas pedem medidas estruturais:

  • Inteligência permanente

  • Políticas sociais que retirem jovens da lógica das facções

  • Garantia imediata de serviços públicos nas áreas retomadas

  • Planos de retorno seguro para famílias expulsas

A solução exige estratégia integrada entre União, Estados e municípios.


O custo humano e cívico é incalculável

Além do trauma psicológico, o êxodo forçado causa abandono de patrimônio, perda de renda, interrupção escolar e dificuldade de acesso à saúde.

Os que permanecem — idosos e pobres sem recursos para emigrar — ficam ainda mais vulneráveis.

A normalização da violência territorial faz com que direitos básicos deixem de ser garantidos e a democracia perca solo.

Quando cidadãos precisam de licença de criminosos para habitar, a soberania do Estado é abalada.


O que precisa mudar — proposta enxuta e urgente

  • Inteligência integrada e sustentada: não apenas operações reativas, mas investigação e infiltração que desarticule redes e seus financiamentos.

  • Proteção imediata às vítimas: abrigos dignos, assistência financeira temporária, reconstrução de serviços essenciais (saúde, escola, transporte).

  • Plano de retorno seguro: garantias jurídicas e policiais para que famílias possam voltar com segurança.

  • Investimento social de longo prazo: educação, ocupação e oportunidades para jovensa raiz do recrutamento.

  • Responsabilização e transparência: relatórios públicos sobre prisões, apreensões e processos para evitar impunidade.


 

 

Denúncia de congressista viraliza

O deputado federal André Fernandes (PL/CE) esteve pessoalmente no distrito fantasma de Uiraponga e divulgou um vídeo impactante nas redes sociais que escancarou o cenário de abandono e medo deixado pelas facções criminosas.

Nas imagens, o parlamentar percorre ruas desertas, praças tomadas pelo mato, casas vazias e mostra o posto de saúde e a agência dos Correios fechadossímbolos de um Estado que abdicou de sua autoridade.

O vídeo, que viralizou, é um retrato brutal da falência do poder público diante do avanço do crime organizado, onde a lei das facções substitui a lei da República.


Conclusão — a derrota do Estado é possível, mas reversível

A transformação de bairros, vilarejos e condomínios em “zonas de exclusão” mostra que o crescimento das facções é uma ameaça direta à vida cívica.

Uiraponga não é exceção, é alerta. O Residencial Torquato Neto, a Vila Natal, os condomínios Canaã e São Rafael, e, Salvador, denunciam a pré-falência do Estado — mas, sobretudo, mostram que já passou da hora de uma reação firme e impactante contra o crime organizado em todo o Nordeste.

Sem políticas de segurança pública integradas e coragem política para recuperar territórios e oferecer futuro, o Nordeste corre o risco de perder áreas inteiras para uma governança paralela e mafiosa.

O Nordeste merece mais: justiça, presença do Estado e coragem para restituir cidadania aos que foram expulsos de suas casas.

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