
A corrupção no Piauí não é invenção dos governos petistas. Longe disso. É uma herança secular, tão antiga quanto as velhas oligarquias que dominaram o Estado desde os tempos do Império. Quem nunca ouviu falar das “comissãozinhas” que variavam de 3% a 10% em cada contrato público? Isso sempre foi prática tão real e previsível quanto a lei da gravidade.
A diferença é que, quando o PT chegou ao poder, chegou também um novo modelo de negócio: a industrialização da gatunagem. Os que antes se diziam paladinos da moralidade, que apontavam o dedo contra as velhas rapinas e pregavam a honestidade administrativa como bandeira, rapidamente trocaram o discurso pelo pragmatismo do saque sistemático. O que antes era um “extra” tolerado, virou regra de ouro.
Os 3% de comissão que garantiam a gasolina do carro oficial, os 10% que pagavam o cafezinho da repartição ou a campanha eleitoral, se multiplicaram até chegarem a percentuais de três dígitos. Sim, três dígitos! O salto não é retórico. Basta ver: em um simples contrato com uma Organização Social para gerir um hospital regional, a Polícia Federal bloqueia R$ 66 milhões. Sessenta e seis milhões — um valor que grita por si só.
O que houve? Superfaturamento escancarado? Serviços pagos e nunca entregues? Medicamentos fantasmas? Ou apenas a sofisticação contábil de vender uma saúde que nunca chegou ao paciente? A matemática é cruel: cada real surrupiado representa uma consulta que não aconteceu, um leito que não foi aberto, um paciente que não foi atendido.
E aqui mora o cinismo: o numerário some pela iniciativa privada, mas não sem cumplicidade. Porque ninguém acredita que tamanha sangria ocorra sem a conivência de quem assina empenhos, liquida despesas e autoriza pagamentos. A pergunta que não quer calar é: quem mais sujou as mãos e o jaleco além dos dois que aparecem nas manchetes?
Os acusados vão morrer negando, como sempre. O governo, por sua vez, vai repetir a ladainha padrão: “não sabíamos de nada”. Mas o povo do Piauí sabe — e há muito tempo — que a corrupção virou método, virou sistema. A diferença é que, de um tempo para cá, a engenharia financeira ficou mais sofisticada, os contratos mais gordos e os cofres mais vulneráveis.
O drama é que, enquanto a corrupção se sofistica, a saúde pública apodrece. Hospitais sem médicos, sem insumos, sem atendimento. Famílias rezando por vagas de UTI, enquanto carros de luxo circulam nas ruas de Teresina comprados com dinheiro que deveria salvar vidas.
A gatunagem, no Piauí, deixou de ser “a regra não escrita da política” para se transformar em verdadeira ciência. Uma ciência perversa, que transformou a desonestidade em método, a fraude em planejamento e a corrupção em legado.
Ao que tudo indica, a Operação OMNI pode estar descobrindo apenas a ponta do iceberg. Os presos devem revelar outras pontas do novelo, e o material apreendido pode desnudar esquemas igualmente milionários e criminosos. Mas a pergunta que não quer calar é: esse inquérito vai resultar em responsabilizações e devolução de tudo o que foi surrupiado? Ou, como na Operação Topique, em pouco tempo será arquivado, deixando tudo como se nada tivesse acontecido?
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