
A história política do Piauí já mostrou que hegemonias não são eternas. Em 1986, Alberto Silva rompeu um longo ciclo de mando ao unir forças com três ex-governadores – Lucídio Portela, Chagas Rodrigues e Helvídio Nunes – contra o então favorito Freitas Neto, deputado federal mais votado do estado e prefeito de Teresina com reconhecido prestígio administrativo. Foi essa aliança improvável que lhe garantiu a vitória, ainda que por uma margem estreita de votos.
Quase quatro décadas depois, o cenário guarda semelhanças. O governador Rafael Fonteles, jovem, midiático e incansável em suas viagens temáticas pelo estado e pelo mundo, busca consolidar sua reeleição. Tem ao seu lado não apenas a máquina pública, mas também a confortável blindagem de um sistema que o PT no Piauí construiu ao longo de quase 20 anos de poder ininterrupto. Um ciclo tão longevo que sequer abre espaço para aliados de outros partidos, sufocando a renovação política e transformando a hegemonia em espécie de monopólio do poder. Como parte dessa estratégia, o atual vice-governador Themístocles Filho, do MDB – até então representante de um partido histórico e aliado de primeira hora – está sendo substituído por um nome do PT, da confiança pessoal de Rafael, reforçando o controle absoluto sobre a chapa e minimizando a influência de parceiros externos.
Além disso, dentro do próprio PT, desenha-se uma disputa silenciosa, porém estratégica. O governador tenta, nos bastidores, consolidar-se como a principal liderança do partido no estado, aproximando-se dos chamados “Rafaboys” e afastando nomes históricos e fundadores da legenda, incluindo figuras próximas ao ex-governador e hoje senador Wellington Dias. Essa disputa interna evidencia uma tentativa clara de renovação seletiva, que busca substituir experiência política e capital histórico por um grupo mais alinhado a interesses pessoais e à manutenção do poder estadual. Não se trata apenas de governar: trata-se de assegurar controle absoluto sobre a legenda e sobre o futuro político do Piauí.
Diante disso, a oposição busca inspiração no passado. Reunir nomes de peso em uma mesma chapa majoritária é a aposta para 2026. Caso o senador Ciro Nogueira consiga unir Joel e Margarete Coelho, João Vicente Claudino e Júlio César Lima, além de montar uma chapa proporcional forte para a Câmara Federal e a Assembleia Legislativa – articulada por lideranças como Georgiano Neto, recordista de votos, e sustentada pela experiência de Sílvio Mendes em Teresina, aliado ao eleitorado cativo do vice-prefeito Jeová Alencar –, Rafael Fonteles terá pela frente um desafio muito maior do que imagina.
Para aqueles que duvidam dessa possibilidade, é importante lembrar que o coordenador nacional do PSD é o ex-senador piauiense Heráclito Fortes, que recentemente selou a paz com o senador Ciro Nogueira – um gesto que, em política, tem peso simbólico e prático.
O cenário se complica ainda mais com a eleição presidencial. Desenha-se fortemente a provável candidatura do governador de São Paulo, Tarcísio Freitas, tendo como companheiro de chapa o senador Ciro Nogueira, que demonstrou enorme capacidade de articulação no comando da Casa Civil da Presidência da República. Essa conexão nacional amplia a força política de Ciro Nogueira no Piauí e reforça a estratégia de uma oposição articulada, capaz de enfrentar a poderosa máquina petista local.
O governador Fonteles é, sim, competitivo, mas sua força vem menos de ideias inovadoras e mais da ocupação sistemática do espaço político, sustentado pelo uso irrestrito da máquina estatal e pelo controle interno do PT. O risco é transformar 2026 em mais um capítulo de continuidade automática do partido, em detrimento de uma necessária alternância de poder.
O eleitor piauiense já deu sinais no passado de que não aceita hegemonias eternas. O povo se cansa. O momento político parece amadurecer novamente para uma virada histórica. Resta saber se as lideranças oposicionistas terão a sabedoria de aprender com 1986: sozinhos, não vencerão; unidos, podem oferecer ao Piauí o caminho da prosperidade econômica e social, em contraste com a política do poder absoluto.
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