
O discurso de Tarcísio de Freitas na Avenida Paulista neste 7 de Setembro não foi apenas mais um ato político. Foi, acima de tudo, um marco simbólico que expôs a transição de um governador até então visto como pragmático, técnico e moderado para um político disposto a carregar o bastão do bolsonarismo raiz. Ao chamar Alexandre de Moraes de “tirano” diante de uma multidão, defender a volta de Bolsonaro às urnas e pedir anistia ampla aos réus do 8 de janeiro, Tarcísio deixou claro: não é mais apenas o gestor de São Paulo, mas um presidenciável em construção.
O gesto foi considerado por seus aliados um divisor de águas. E não à toa. Até aqui, Tarcísio ensaiava uma posição de equilíbrio: era visto como fiel a Bolsonaro, mas também capaz de dialogar com setores do centro político e do empresariado. Agora, ao radicalizar o discurso e vestir sem reservas a camisa do bolsonarismo, o governador se coloca como herdeiro natural caso Bolsonaro permaneça inelegível em 2026.
O que caracteriza esse divisor é justamente a mudança de tom. Tarcísio não apenas criticou o Supremo — algo comum no repertório bolsonarista —, mas atacou nominalmente um ministro em meio a julgamentos decisivos. Essa escolha discursiva tensiona a relação institucional com o Judiciário e pode custar caro em termos de governabilidade. Mas, na lógica eleitoral, garante aplausos da base mais fiel e cristaliza sua imagem de “guerreiro contra o sistema”.
Do ponto de vista estratégico, o movimento é calculado. A manifestação na Paulista, cercada por Michelle Bolsonaro, Flávio Bolsonaro e Silas Malafaia, foi um ato de reaproximação formal com a família Bolsonaro, que agora vê em Tarcísio não só um aliado, mas um sucessor legítimo. A aliança é clara: se Bolsonaro puder concorrer, Tarcísio será o principal fiador de sua candidatura; se não, terá o apoio para disputar a presidência.
Mas o risco é evidente. Ao adotar um tom mais radical, Tarcísio pode perder espaço no centro político, justamente onde está o eleitorado que define eleições no Brasil. Mais: a aposta em anistia ampla e irrestrita para os condenados do 8 de janeiro pode reforçar a percepção de que a direita brasileira não fez o devido distanciamento daquele episódio, um rótulo perigoso para quem ambiciona governar um país de dimensões continentais.
Ainda assim, a jogada tem lógica eleitoral. Ao se apresentar como a voz do bolsonarismo em 2026, Tarcísio não apenas se credencia para herdar votos, mas também neutraliza potenciais concorrentes da direita, como Romeu Zema. A leitura é simples: sem Bolsonaro, há apenas um candidato viável para ocupar esse espaço.
Por outro lado, no governo federal e no STF, o discurso foi visto como um ataque frontal, quase uma tentativa de coação política em meio a julgamentos. Deputados petistas já classificaram a fala como “cruzar o Rubicão”. Ou seja, Tarcísio abandonou a moderação e entrou de vez no campo da polarização.
A pergunta que fica é: terá ele tempo e habilidade para recalibrar esse discurso até 2026, caso precise conquistar o centro? O divisor de águas que o fortalece na direita pode também se transformar em barreira para dialogar com o restante do país.
Uma coisa, porém, já está clara: o 7 de Setembro na Avenida Paulista pode ter marcado o dia em que Tarcísio de Freitas deixou de ser apenas o governador de São Paulo para se tornar, oficialmente, o nome mais forte da direita para as eleições presidenciais de 2026.
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