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EUA cancelam conferência militar com o Brasil: o que está por trás do recado — e o que o país perde

Cancelamento da conferência espacial e incerteza sobre a Operação Formosa expõem desgaste nas relações militares entre Brasília e Washington, em meio a tensões políticas e econômicas entre Lula e Trump

20/08/2025 às 09h57 Atualizada em 20/08/2025 às 19h20
Por: Douglas Ferreira
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As Forças Armadas do Brasil e dos EUA há décadas têm relações de amizade e cooperação mútua - Foto: Exército Brasileiro
As Forças Armadas do Brasil e dos EUA há décadas têm relações de amizade e cooperação mútua - Foto: Exército Brasileiro

Os Estados Unidos cancelaram, em 23 de julho, a edição de 2025 da Conferência Espacial das Américas, que seria organizada com a Força Aérea Brasileira (FAB) entre 29 e 31 de julho, em Brasília. A FAB informou a decisão em nota; o Comando Sul (Southcom) não detalhou os motivos. O gesto acendeu o alerta no Ministério da Defesa e foi lido em Brasília como mais um sinal do desgaste nas relações bilaterais. 

O que foi cancelado — e por que isso importa

A Conferência Espacial das Américas é um fórum anual do Southcom para coordenar cooperação no domínio espacial — da segurança e uso militar à economia, telecomunicações, pesquisa e navegação. Em 2024, o encontro em Miami reuniu países do continente sob a batuta do US Space Command para ampliar parcerias e capacitação. A interrupção em 2025 retira do Brasil um palco de articulação regional em um setor de tecnologia crítica.

O que pode ter pesado (o que sabemos até agora)

Não houve explicação oficial. Mas o cancelamento ocorre após uma sequência de atritos Washington–Brasília em 2025:

  • Sanções financeiras dos EUA ao ministro Alexandre de Moraes (STF), impostas pela agência do Tesouro (OFAC), com bloqueio de bens sob jurisdição americana e proibição de transações por cidadãos/empresas dos EUA. 

  • Escalada tarifária: o governo Trump anunciou tarifas de até 50% sobre uma gama de importações brasileiras, ampliando tensões comerciais.

Em paralelo, a política externa de defesa do Brasil aprofundou laços com a China (inclusive com o envio inédito de oficiais-generais como adidos militares em Pequim), enquanto exercícios no Brasil chegaram a reunir tropas americanas e chinesas lado a lado em 2024 — um equilíbrio que nem sempre agrada a Washington. 

Impactos imediatos para o Brasil

  1. Perda de agenda e de liderança regional no “ecossistema espacial”
    Sem o encontro em Brasília, o Brasil perde:

  • visibilidade política;

  • rodadas técnicas sobre space situational awareness (SSA), comunicações seguras, PNT/navegação e interoperabilidade;

  • oportunidade de amarrar projetos e treinamentos com parceiros e empresas sob guarda-chuva americano.
    Os EUA listam o Brasil, inclusive, entre os países com acordos de compartilhamento de dados SSA e programas de intercâmbio/liaison — ativos que dependem de confiança e rotinas de trabalho comuns. O recuo em 2025, ainda que pontual, reduz o ritmo dessa integração. 

  1. Sinal negativo a aliados e à indústria
    Conferências desse tipo são “vitrines” para acordos de pesquisa, parcerias com universidades e cadeias de fornecedores (sensoriamento, satcom, lançamento). Num ano em que o Brasil busca atrair payloads e serviços para Alcântara sob o Acordo de Salvaguardas com os EUA, a mensagem de distanciamento desincentiva parte dos investidores mais avessos a risco político. 

  2. Risco de efeito cascata em exercícios
    A ausência americana vem sendo cogitada também para a Operação Formosa (principal exercício da Marinha). Em 2024, os EUA participaram e a China enviou tropas; para 2025, reportagens indicam que os fuzileiros navais dos EUA não responderam ao convite até aqui. Se confirmado, o Brasil perde intercâmbio tático, padronização de procedimentos e ganho de interoperabilidade com um parceiro com quem opera missões e cursos há décadas. 

  3. Cooperação não zerou — mas ficou mais frágil
    Apesar do recuo, outros vetores seguem ativos: em julho, aeronaves americanas operaram no Exercício Conjunto Tápio (FAB) em Mato Grosso do Sul, e o calendário do Exército mantém exercícios bilaterais como o núcleo do CORE (padrões e operações combinadas). O problema não é a ruptura total, e sim a erosão incremental da agenda.

O que o Brasil perde, na prática

  • Tempo e cadência: agendas de cooperação espacial e de defesa avançam por “ciclos” de reuniões técnicas e exercícios. Cada cancelamento quebra a cadência, adia entregas e desorganiza grupos de trabalho.

  • Captação de projetos e treinamento: sem a conferência-hub, diminuem oportunidades de cursos, estágios e financiamentos vinculados à rede americana (DoD/USSPACECOM/INL/IMET), além de reduzir a chance de o Brasil pautar prioridades regionais. 

  • Ambiente para Alcântara e para a base industrial: investidores que dependem de componentes sujeitos a ITAR e cadeias dos EUA tendem a postergar decisões até que o clima político estabilize. 

  • Reputação e previsibilidade: parceiros percebem maior incerteza no eixo Washington–Brasília, crucial para missões de paz, resposta a desastres e segurança de infraestruturas críticas (satélites, cabos, redes).

O que pode explicar o recuo americano (hipóteses sustentadas por fatos)

  • Pressão política doméstica nos EUA após sanções e retórica dura contra autoridades brasileiras; cancelamentos são sinais de custo/condicionalidade sem romper pontes. 

  • Alinhamento brasileiro com múltiplos polos (EUA/China) em exercícios e na diplomacia de defesa; Washington responde calibrando o nível de engajamento.

  • Escalada comercial (tarifas) que transborda para a agenda de Defesa, tradicionalmente mais blindada — mas não imune — a crises políticas.

E agora: como mitigar danos

  1. Recompor a agenda técnica: propor, ainda em 2025, workshops temáticos (SSA, satcom tático, ciberespaço) com USSPACECOM/US Army South, nem que fora do formato de conferência.

  2. Garantir presença cruzada em exercícios: preservar convites e transparência de objetivos em Formosa e CORE; manter observadores se a tropa não vier.

  3. Blindar Alcântara: reforçar governança e previsibilidade regulatória para operadores americanos, evitando que o hiato político vire hiato de contratos

Em síntese: o “não” dos EUA à conferência não encerra a cooperação militar, mas reduz a velocidade da inserção brasileira em cadeias estratégicas (especialmente no espaço). Em um setor onde confiança e calendário valem tanto quanto orçamento, perder anfitrionia e previsibilidade significa perder terreno. O Brasil precisa, rapidamente, recompor rotas de trabalho — ou verá 2025 virar um ano perdido para uma agenda que não espera.

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