
Na turbulência política de 1964, o golpe militar contou com amplo apoio: políticos, sociedade civil, governadores, clero e até a própria CNBB se alinharam para derrubar João Goulart.
No Piauí, o governador Petrônio Portella (1963-1966) aderiu ao novo regime e cunhou uma frase que atravessou gerações:
“Só não muda quem se demitiu do direito de pensar.”
Petrônio, uma das maiores expressões da política brasileira do século passado, deve se remexer em sua tumba ao ver o que o Piauí se tornou. Figuras como Mão Santa ainda ecoam essa máxima como símbolo de lucidez perdida.
O Piauí Mudou, Mas Para Onde?
Houve um tempo em que a política piauiense, mesmo polarizada, produzia líderes de visão nacional. Petrônio Portella, Alberto Silva, Hugo Napoleão, Freitas Neto, Lucídio Portella, Heráclito Fortes, Mão Santa, João Vicente Claudino, Elmano Ferrer, Wilson Martins, Ciro Nogueira cada qual construiu pontes e deu ao estado peso político desproporcional ao seu tamanho.
Essa elite política não estava isenta de vícios, mas trabalhava com projetos de infraestrutura, de integração econômica e presença institucional em Brasília. O Piauí era pequeno no voto, mas grande na voz.
Essa elite ruiu.
O protagonismo migrou para o PT e seus herdeiros. Wellington Dias, Rejane Dias, Rafael Fonteles, Regina Sousa, e outros ocuparam o espaço deixado, transformando o Palácio de Karnak em fortaleza quase inexpugnável.
A política, antes marcada por projetos nacionais, atomizou-se em “política miúda”: compadrio, feudos locais, arquipélagos de poder controlados pelo acesso a cargos e recursos públicos. Figuras outrora expressivas Hugo Napoleão, Heráclito Fortes, Freitas Neto, João Vicente Claudino se apagaram. A oposição reduziu-se a Ciro Nogueira, cuja fidelidade à tarefa é alvo de dúvidas até entre seus aliados.
O PT Venceu e Agora?
O partido que “não cabia numa Kombi” tornou-se o único veículo de poder. Sua próxima jogada parece clara: eliminar os últimos resquícios da velha política.
Famílias tradicionais Júlio César, Marcelo Castro, Themístocles Filho tentam se manter à sombra do Karnak, multiplicando herdeiros como quem cultiva dinastias patrimoniais. Mas a máquina petista, que já triturou lideranças tradicionais, prepara-se para digerir também esses aliados de ocasião.
No centro de tudo está o governador Rafael Fonteles, que já ensaia emancipar-se do padrinho Wellington Dias e criar sua própria casta de pupilos: os “Rafa Boys”.
E o Povo?
Enquanto isso, a população se contenta com assistencialismo. O bolsa-família garante aplausos e fidelidade, mesmo que os indicadores sociais contem outra história.
Segundo o Índice de Progresso Social (IPS) 2025, o Piauí alcançou apenas 59,17 pontos, abaixo da média nacional de 61,96. A capital Teresina aparece melhor, com 65,76, mas ainda distante de uma liderança nacional. O abismo em direitos individuais, inclusão e justiça permanece escancarado.
Funeral da Alta Política
A frase de Petrônio Portella deveria ser farol, mas virou relíquia nostálgica. A velha oligarquia, tantas vezes acusada de atrasar o estado, foi substituída por uma nova oligarquia de compadrios modernos mais discreta, mas talvez ainda mais perniciosa.
E a pergunta que resta é cruel:
O Piauí mudou para melhor? Ou apenas trocou de donos das velhas famílias para os “Rafa Boys”?
Enquanto isso, o povo continua aplaudindo quem distribui bolsas e cargos, resignado a assistir à política como espetáculo barato sem perceber que, no palco, não há revolução alguma, apenas a sucessão silenciosa de oligarquias.
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