
Uma das decisões mais controversas do ano no Judiciário brasileiro foi tomada no fim de julho pelo juiz Rubens Casara, da 43ª Vara Criminal do Rio de Janeiro. Ele determinou a soltura de Patrick Rocha Maciel, de 20 anos, preso por roubo em Ipanema e com 86 anotações criminais, incluindo furtos, porte de arma, lesão corporal e ameaça. A decisão contrariou parecer do Ministério Público pela prisão preventiva e provocou forte reação pública. Casara justificou que “anotações na ficha penal não são pressuposto para prisão cautelar” e que não é possível “fazer futurologia” sobre reincidência. Como medida alternativa, impôs apenas comparecimento mensal em cartório e restrição de viagem por 100 dias.
A polêmica ganhou contornos políticos quando veio à tona que Casara é casado com a filósofa petista Marcia Tiburi, conhecida por declarações radicais, como a frase “sou a favor do assalto” — que ela diz ser uma provocação filosófica. Ambos têm histórico de militância e chegaram a escrever juntos a peça Um Fascista no Divã, com críticas ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Casara também é autor de obras como Prisão: Além do Senso Comum, nas quais defende teses antipunitivistas e vê o sistema penal como ferramenta de controle social contra pobres e opositores do neoliberalismo.
A carreira de Casara é marcada por episódios de ativismo político. Ele pendurou um retrato de Che Guevara no gabinete e, em 2016, participou de protesto contra o impeachment de Dilma Rousseff, declarando-se “juiz de direito, não de direita” e criticando o STF. A postura levou a uma investigação disciplinar no Conselho Nacional de Justiça, arquivada posteriormente com aval do Supremo. O magistrado também é membro do grupo Prerrogativas, ligado a advogados que atuaram contra a Lava Jato e pela libertação de Lula, e já comparou propostas de endurecimento penal defendidas por Sergio Moro a experiências do nazismo e do fascismo italiano.
No campo intelectual, Casara combina referências marxistas e psicanalíticas para criticar o capitalismo e o neoliberalismo, temas recorrentes em seus livros e entrevistas. Ele identifica o sistema de Justiça como mecanismo de preservação de estruturas de poder e acusa o aparato penal de manter o racismo estrutural. Em 2024, foi homenageado na coletânea Direito e Poder: Escritos em Homenagem a Rubens Casara, que reúne 51 artigos de juristas e acadêmicos afinados com sua visão.
Para críticos, a decisão de libertar um réu com extensa ficha criminal em meio a uma crise de segurança revela a aplicação prática de suas ideias — e o risco de que concepções ideológicas influenciem sentenças judiciais. Já seus apoiadores afirmam que ele defende garantias constitucionais e resiste à pressão por punições exemplares. Entre polêmicas, elogios e ataques, Rubens Casara mantém influência expressiva no meio jurídico e acadêmico, alimentando um debate acalorado sobre o papel da ideologia na magistratura brasileira.
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