
O Piauí corre o risco de perder ainda mais voz política: tramita no TSE desde 2022 uma proposta de revisão no número de cadeiras dos Legislativos federal e estadual, que deve ser decidida ainda este ano para entrar em vigor nas eleições de 2026. A mudança atende aos interesses de estados que cresceram demograficamente como o Ceará, que poderá ganhar mais uma cadeira na Câmara Federal e duas na Assembleia Legislativa. Já o Piauí, que perdeu população nos últimos anos, poderá ter redução de duas cadeiras na Câmara e de seis assentos no Legislativo estadual.
Além de significar menos representatividade, essa mudança pode custar caro para nossa população: a estimativa é que o estado perca cerca de R$ 100 milhões por ano em emendas parlamentares ou aproximadamente meio bilhão de reais ao longo de uma legislatura. Em tese, a diminuição no número de deputados estaduais poderia ser vista como positiva, diante da completa inutilidade da Assembleia Legislativa do Piauí, sempre omissa no seu papel constitucional de fiscalizar o Executivo. Mas, por outro lado, essa perda é também o reflexo cruel de décadas de êxodo populacional especialmente de jovens que deixaram o estado por absoluta falta de oportunidades.
Essa sangria demográfica não é coincidência. Durante os sucessivos mandatos de Wellington Dias, o que mais o Piauí exportou foi gente, não produtos. O capital humano, formado nas escolas públicas e privadas do estado, encontrou portas fechadas no mercado local e acabou alimentando o crescimento de outros estados uma perda silenciosa que, agora, cobra seu preço na representatividade política.
E, como se não bastasse, o próprio Wellington articula para manter o controle do tabuleiro. O senador ameaça disputar na convenção partidária a indicação do filho como companheiro de chapa do governador Rafael Fonteles. Mais grave ainda é ameaçar enfrentar o próprio governador, que pretende emplacar outro nome de sua confiança. É o criador se voltando contra a criatura, numa disputa que revela mais sobre vaidade e herança política do que sobre projetos para o estado.
Houve um tempo em que Wellington Dias era o “terror” da velha política piauiense. Sindicalista bancário, verbo inflamado apessar do vocabulário reduzido, denunciava oligarquias e prometia libertar o Piauí do atraso. Quarenta anos depois, é difícil imaginar o jovem combativo de outrora encarando o homem que se tornou.
Ele construiu um reinado digno de manual oligárquico: vereador, deputado estadual, deputado federal, governador duas vezes, senador, governador mais duas vezes, senador de novo e, agora, ministro de Lula o padrinho político que, junto com Dilma, comandou o Brasil no período em que Wellington mais teve prestígio em Brasília. Prestígio este que, para o Piauí, se traduziu em discursos, promessas e placas inaugurais de obras que nunca saíram do papel. Enquanto o Ceará conquistou porto, refinaria e cinturão de obras, e o Maranhão avançou com estradas, portos e ferrovias, o Piauí ficou com a retórica.
E a retórica veio acompanhada de escândalos. Em todos os quatro mandatos como governador, houve denúncias de desvios de conduta, prevaricação, benefícios financeiros suspeitos, enriquecimento ilícito e favorecimento pessoal e familiar. O episódio do jatinho alugado com dinheiro público para um passeio do filho esse mesmo filho que Wellington tenta emplacar como vice-governador, e da namorada pelas praias do estado aconteceu justamente quando o Piauí enfrentava a tragédia da barragem de Algodões que deixou mortos, desaparecidos e centenas de famílias sem casa. Até hoje, nem a barragem foi reconstruída, nem os culpados punidos.
Se as grandes obras ficaram para os vizinhos, a obra familiar segue sendo edificada com capricho. A esposa foi de deputada estadual a federal e, depois, garantiu cadeira vitalícia no Tribunal de Contas do Estado. Agora, o objetivo é emplacar o filho como vice-governador, mantendo o trono em casa.
Wellington passou tanto tempo denunciando a oligarquia que, quando chegou ao poder, fundou a sua própria. A diferença é estética: trocou o bigode e o chapéu de coronel pelo terno e a gravata, somou um discurso “progressista” de vitrine e manteve a essência do mando concentrado. O resultado é o mesmo: poder fechado, povo sem oportunidades e juventude proibida de sonhar com futuro no Piauí.
O estado continua espremido entre o Ceará e o Maranhão só que agora também está sufocado entre um passado que não muda e um futuro que não chega.
E Wellington? Esse está muito bem, obrigado.
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