
Na distopia “1984”, de George Orwell, o Big Brother não é apenas um homem: é o rosto onipresente de um sistema que controla palavras, pensamentos e até a memória coletiva. Na nossa “Oceania tropical”, esse rosto não é ficção. Ele está estampado nas capas dos jornais, nos portais de notícias e nos telejornais diários: é o semblante do Supremo - o Grande Irmão brasileiro.
A frase “Big Brother is watching you” poderia ser gravada nas paredes do STF e dos gabinetes em Brasília. A Polícia Federal, criada para proteger o cidadão contra abusos do Estado, tornou-se um braço armado da vigilância política — paga com o suado dinheiro do contribuinte — a serviço de um Supremo que se coloca acima da Constituição e de um partido que fez da mentira um método de governo.
Assim como no universo orwelliano, a “verdade” é reescrita diariamente: o que ontem era mentira, hoje é dogma; o que antes era crime, agora é “narrativa autorizada”. O crime de pensamento não é mais literatura distópica — é realidade, com decisões judiciais e inquéritos secretos sufocando vozes dissidentes.
O que desejam é o sequestro da soberania popular. A soberania pertence à Nação — ao povo. Mas no Brasil, foi sequestrada por uma corte que se julga infalível e por um presidente que, com histórico de desprezo pela liturgia do cargo, tornou-se um papagaio que repete piadas como um comediante decadente.
As Forças Armadas, que deveriam ser a última barreira contra a tirania, viraram repartições burocráticas. Quartéis cheios de oficiais fardados e bem pagos, mas sem a coragem mínima de enfrentar o desmonte das instituições. Servem, na prática, como estafetas do poder instalado.
O aspecto mais trágico do cenário brasileiro atual não é apenas o abuso de poder — é a complacência de grande parte do povo.
Enquanto direitos são corroídos, liberdades sufocadas e a democracia esvaziada, milhões seguem anestesiados.
Para muitos, a preocupação é não perder o feriado prolongado, a novela ou a rodada do campeonato.
Há quem prefira “não se envolver” e viver como se política fosse um espetáculo distante, até o dia em que o Estado bate à sua porta.
Medo disfarçado de prudência, onde muitos veem, entendem, mas escolhem se calar para não “arrumar problema”, esquecendo que o silêncio de hoje compra a servidão de amanhã.
Pior ainda é a cumplicidade travestida de neutralidade. Parte da elite econômica que lucra com a estabilidade aparente e, por conveniência, fecha os olhos ao avanço da tirania.
Enquanto o povo dorme, a máquina do autoritarismo trabalha 24 horas por dia. E o relógio da liberdade não para de perder minutos.
De consolo, se é que precisamos de consolo, a história não absolve tiranos… nem povos omissos
O voo desses dois — o Supremo e o Canastrão — pode parecer firme, mas a História ensina que todo poder construído sobre medo e mentira acaba em ruína.
Robespierre, na França revolucionária, mandou milhares à guilhotina em nome da “virtude pela força” e terminou decapitado pelos próprios aliados em 1794. Hitler incendiou o mundo e morreu cercado de escombros. Idi Amin, o carniceiro de Uganda, fugiu humilhado. Muamar Kadafi, outrora senhor da Líbia, foi arrastado e linchado. Saddam Hussein escondido dentro de um buraco sujo, capturado, terminou enforcado. Pol Pot, arquiteto do genocídio cambojano, morreu isolado, temendo ser capturado.
Mas a história também condena povos que assistiram à destruição das próprias liberdades sem levantar a voz. Roma caiu não só pelos bárbaros, mas também pela decadência moral interna. E o Brasil caminha para ser lembrado como uma nação que vendeu sua liberdade em troca de comodidade e silêncio.
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