
Meu sonho é pequeno, mas sincero: ver o Piauí, um dia, pleno em desenvolvimento. Um estado funcional, moderno, com orgulho de si mesmo — não por slogans oficiais, mas por conquistas reais. Que as instituições respondam com agilidade às demandas do povo, como exige o mundo digital, e que o cidadão não se perca no emaranhado de leis, decretos e exigências criadas para dificultar, punir e burocratizar. Por aqui, onde o poder público põe seus longos braços, é certo: a engrenagem emperra.
É triste constatar que, em pleno século XXI, nosso Estado ainda se arrasta em lombo de jumento enquanto o mundo corre na velocidade da luz.
Essa realidade não é novidade. Vem de longe. O Brasil nasceu como uma colônia extrativista, centralizadora, burocrática e patrimonialista. No Império, o poder já era concentrado nas mãos de poucos — latifundiários, militares e famílias tradicionais. No Piauí, esse modelo se replicou quase como caricatura. A elite local sempre orbitou o poder, revezando-se entre cargos políticos e controle da máquina pública, sem qualquer projeto de desenvolvimento sustentável.
A Primeira República (1889–1930), apelidada de República Oligárquica, não foi diferente: no lugar de uma democracia real, o que se via era o “coronelismo”, voto de cabresto, clientelismo puro. No Piauí, velhas famílias mandavam e desmandavam nos grotões, usando a miséria como instrumento de controle político. A redemocratização pós-Vargas não trouxe grandes mudanças para a estrutura local. Continuamos sendo governados por dinastias políticas com aparência de renovação, mas com práticas seculares. No Piauí, nada mudou. Apenas a elite política foi ampliada com o ingresso de outros atores. Aqui, passam-se os cargos políticos como herança familiar.
Durante a Ditadura Militar (1964–1985), a promessa de desenvolvimento chegou com o autoritarismo, obras faraônicas e uma expansão urbana desordenada. No Piauí, a concentração de recursos em Teresina e em projetos de fachada perpetuou o abismo entre capital e interior. A redemocratização trouxe liberdade, mas não planejamento. A Constituição de 1988 descentralizou responsabilidades, mas não garantiu capacidade técnica nem orçamentária para os entes subnacionais.
Hoje, o Estado segue dependente do Fundo de Participação, da boa vontade de Brasília e do jogo político. A máquina pública é inchada, lenta, arcaica. Não há continuidade administrativa. Cada novo governo — mesmo quando sucessor aliado — se sente no direito de apagar o que o anterior fez, recomeçando do zero, como se governar fosse um ato de vaidade e não de serviço público.
No campo social, os números envergonham. O Piauí ostenta há décadas os piores índices de IDH do país. A educação pública é um fracasso repetido, com escolas que funcionam sem estrutura, professores desmotivados e alunos desassistidos. A saúde agoniza, empurrada para a iniciativa privada sob o pretexto da “eficiência”, mas na verdade por incapacidade histórica do Estado em entregar serviços mínimos. A segurança é apenas reativa. O saneamento é uma miragem. As concessionárias de serviços de água e energia são talvez as que ofertam os serviços mais caros e ineficientes do país.
E diante disso, onde está o setor produtivo? O empresariado, que em qualquer nação civilizada é agente de transformação, aqui parece paralisado — ou pior, resignado. O silêncio do setor produtivo é ensurdecedor, com rarissimas e solitarias excessões. Em vez de pressionar por reformas, exigir transparência, cobrar eficiência, o que se vê é um pacto informal de sobrevivência. Muitos empresários preferem calar para garantir seus contratos, seus incentivos fiscais, suas “boas relações” com os poderosos de turno. Tornaram-se cúmplices do atraso, amigos ocultos de um rei desastrado.
Essa omissão tem raízes. O modelo econômico brasileiro sempre foi excludente e extrativista. O desenvolvimento industrial do país foi financiado pelo Estado, com subsídios e protecionismo. Em troca, o empresariado tornou-se dependente do favor estatal. No Piauí, essa dependência é ainda mais aguda: poucos setores são autossuficientes ou competitivos nacionalmente. A força do capital local é frágil e fragmentada — e por isso, tão facilmente cooptada.
Mas isso não justifica. Pelo contrário, agrava. O que temos hoje é um cenário onde os que deveriam liderar o progresso — industriais, comerciantes, investidores, profissionais liberais — se contentam em apenas manter seus negócios funcionando. Não ousam, não denunciam, não enfrentam. Aceitam passivamente um modelo que só interessa aos que vivem do Estado — e não aos que trabalham para sustentar o país.
No plano federal, a situação é igualmente desastrosa. Temos hoje o pior Congresso Nacional de toda nossa história. Um Senado refém de uma única figura disfuncional. Uma Câmara dos Deputados covarde, ajoelhada diante de um outro poder que, formalmente, jamais deveria legislar.
Tudo isso conduzido por atores sem respaldo popular, que agem como se tivessem carta branca para destruir as bases da República.
No Piauí, a Assembleia Legislativa virou apêndice do Executivo. Dos 30 deputados estaduais, 28 são governistas. Qual o sentido disso numa democracia? Onde está o contraditório? Onde está o debate de ideias? Sem oposição real, toda democracia vira ditadura. E no Piauí, a ditadura é disfarçada de consenso.
Enquanto isso, seguimos sendo o último vagão do Brasil, que já é um dos últimos trens do mundo. Um Estado pobre, jovem, cheio de potencial desperdiçado. O Piauí precisa mais do que promessas: precisa de ruptura. E essa ruptura só virá quando o setor produtivo romper com a lógica da submissão e assumir o protagonismo que lhe cabe. Não dá mais para aceitar a mediocridade como destino.
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