
O mundo tem 196 países e 8 bilhões de habitantes. O Brasil, com seus 214 milhões de cidadãos — apenas 2,7% da população mundial — conseguiu um feito de “gente grande”: concentrar 14% de todos os homicídios do planeta. Em outras palavras: de cada sete assassinatos cometidos no mundo, um acontece aqui, na nossa terra brasilis. É a triste prova de que, quando o assunto é violência, o Brasil não participa do campeonato: ele organiza.
Enquanto outras nações disputam medalhas em Olimpíadas, nós ostentamos recordes em necrotérios. O resumo das nossas estatísticas é cruel:
111 pessoas assassinadas por dia, quatro a cada hora.
100 mortos no trânsito diariamente, como se dirigir fosse um esporte radical.
25% de todos os roubos de celular do planeta acontecem aqui. De cada quatro celulares subtraídos no mundo, um troca de dono em bom português.
Não por acaso, entre as 50 cidades mais violentas do mundo, 17 são brasileiras. É como estar no “top 20” da desgraça — só que sem glamour, sem aplausos e com prêmio de consolação em forma de caixão. E o mais preocupante é que no "top 10", nove cidades estão no Nordeste.
Maranguape (CE): 79,9; Jequié (BA): 77,6; Juazeiro (BA): 76,2; Camaçari (BA): 74,8; Cabo de Santo Agostinho (PE): 73,3; São Lourenço da Mata (PE): 73,0; Simões Filho (BA): 71,4; Caucaia (CE): 68,7.
Um fato curioso, e que traz um pouco de alívio: o Piauí não integra esse triste ranking. O Estado, embora registre uma escalada da criminalidade — com facções dando as ordens das pequenas às grandes cidades, com destaque para Parnaíba, no litoral, e Teresina, no sertão — ainda ostenta um grau de tranquilidade se comparado aos demais Estados da região.
O brasileiro já não caminha: desfila como alvo. Em São Paulo, as ruas esvaziam no fim da tarde. Em Teresina, basta avistar dois rapazes numa moto para o coração disparar — uns correm, outros rezam, há quem entre em choque. O costume de puxar uma cadeira e prosear na calçada virou peça de museu. Hoje a convivência é por aplicativo, fria, silenciosa, sem cheiro de café e sem risada de vizinho.
A violência não apenas mata: ela rouba a alma da convivência.
E o que fazem os governos? Disputam quem lança o programa mais pomposo: “Brasil Mais Seguro”, “Pátria Protegida”, “Operação Esperança”. Bonito no papel, mas na prática parece mais “Operação Faz de Conta”.
Nunca se prendeu tanta gente — e nunca se matou tanto. É um ciclo que se repete: polícia prende, justiça solta, cadeia lota, crime multiplica. É como enxugar gelo com toalha de papel.
A ONU fala em reduzir as mortes no trânsito pela metade até 2030. Já o Brasil parece disposto a aumentar em dobro a cada governo. Relatórios, discursos, promessas… mas a realidade continua escorrendo em sangue nas páginas dos jornais.
Um país que mata como se estivesse em guerra, sem estar em guerra.
Um país que trata trânsito como roleta-russa.
Um país onde celular roubado poderia ser item de exportação.
E no fim, a pergunta ecoa — não só de Cazuza, mas de cada cidadão acuado: que país é este, afinal?
Ou a sociedade reage e cobra governos que ofereçam segurança e vida digna, ou seguiremos no campeonato da morte, batendo recordes que ninguém quer comemorar.
Não precisamos de slogans, nem de marketing. Carecemos de atitude. E de inverter a lógica: que o brasileiro deixe de ser estatística da morte e volte a ser protagonista da vida.
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