
O Brasil não é mesmo para amadores. Em todo lugar do mundo, empresários buscam aproveitar oportunidades. Isso é normal, faz parte do jogo. Mas o que se vê às vésperas da COP30, programada para novembro em Belém do Pará, ultrapassa qualquer lógica de mercado e escancara o pior estereótipo nacional: o da exploração gananciosa.
Pelo menos 25 países já enviaram carta oficial à ONU pedindo que a conferência seja transferida de Belém, diante do aumento abusivo nos preços da hospedagem. Em alguns casos, hotéis estão cobrando até 10 vezes mais do que a tarifa normal.
A COP30 é considerada a mais importante conferência climática da década. Seria a chance do Brasil mostrar liderança ambiental, capacidade organizacional e hospitalidade amazônica. No entanto, o que deveria ser um cartão de visitas está se transformando em um escândalo de proporções globais.
O próprio presidente da COP30, André Corrêa do Lago, admitiu publicamente que a crise preocupa e gera indignação, principalmente entre países em desenvolvimento:
“Há uma sensação de revolta. Talvez os hotéis não estejam se dando conta da crise que estão provocando”, afirmou.
O problema não é o aumento de preços em função da alta demanda — algo natural em eventos internacionais. O ponto é a exploração predatória, que ameaça inviabilizar a participação de delegações, jornalistas, ONGs e até representantes oficiais de países de menor poder econômico.
Na prática, os hotéis de Belém estão colocando em risco não apenas a imagem do setor turístico, mas também a credibilidade do Brasil como anfitrião global.
Em vez de ser lembrado como palco da luta contra as mudanças climáticas, o Brasil corre o risco de ser manchete pela ganância. A repercussão negativa pode minar futuros eventos internacionais e reforçar a visão de que o país não está preparado para receber compromissos dessa magnitude.
Se a COP30 for transferida de Belém, a perda será histórica — econômica, política e simbólica. O evento movimentaria comércio, turismo, transportes e serviços. Mas o oportunismo de poucos pode custar caro a todos.
A preocupação agora é se outros setores seguirão a mesma trilha da hotelaria. Restaurantes, transportes e prestadores de serviço podem aproveitar o clima e inflacionar preços, ampliando a crise e afastando de vez a confiança internacional.
Até o momento, representantes do setor hoteleiro evitam assumir responsabilidade, amparando-se no argumento da “livre precificação”. O governo federal tenta convencer os empresários a recuar, mas não há mecanismos legais para impor limites.
O impasse entre o governo e o setor hoteleiro de Belém ameaça colocar em xeque a realização da COP30. Com diárias cobradas até dez vezes acima do normal, ao menos 25 países já manifestaram desconforto e especula-se até cortes de 50% no tamanho de delegações europeias. Nos bastidores, fala-se inclusive em pleito por mudança de sede — hipótese que o governo federal descarta. A Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) notificou 24 hotéis e o sindicato do setor para esclarecer possíveis práticas abusivas, mas os hoteleiros reagiram dizendo que não aceitarão “ameaças” nem “ingerência na atividade econômica privada”.
Segundo o presidente do sindicato, Eduardo Boullosa Júnior, a crise é fruto de falhas no planejamento e de falta de diálogo com o setor, que passou a ver a conferência como “galinha dos ovos de ouro” após especulações sobre acomodações em condomínios de luxo. Já a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Pará afirmou estar contra pressões, mas garantiu estar comprometida em hospedar todas as 159 delegações previstas.
Enquanto isso, cresce a pressão internacional: em Bonn, na Alemanha, diplomatas europeus criticaram tarifas que ultrapassam US$ 1.000 a diária e alertaram que os preços podem inviabilizar a participação de países em desenvolvimento. Apesar do desgaste, o governo federal e o Estado do Pará reafirmam que a COP30 será realizada em Belém.
BRASIL Brasil - A engrenagem da escassez: como o poder se alimenta da miséria
NEM TODOS ESTÃO? Cuidando do que importa?
SELEÇÃO Seleção do IBGE segue com inscrições abertas até 9 de julho no Piauí Mín. 20° Máx. 38°