
"A gente não quer só comer,
A gente quer comer e quer fazer amor.
A gente não quer só comer,
A gente quer prazer pra aliviar a dor."
— Estrofe da música Comida, da banda Titãs.
Na política, há gestos que falam mais alto do que discursos. No passado, bastava a presença de Lula para arrastar multidões. Era o “pop star” da esquerda brasileira: carismático, adorado, seguido com fervor quase religioso. Hoje, no entanto, o mesmo líder parece preso a outro tipo de estratégia: não há povo sem quentinha. E, às vezes, nem com ela.
Nesta semana, no Vale do Jequitinhonha, uma das regiões mais simbólicas do Nordeste mineiro, Lula desembarcou com seu séquito, suas promessas recicladas e sua retórica de palanque. O que ele encontrou? Uma plateia morna, apática, esvaziada. Para garantir algum público no evento de Minas Novas (MG), foi preciso acionar uma logística mais eficaz que a retórica: caminhões carregados de marmitas.
Sim, a cena é real. Após o discurso presidencial — que exaltava as políticas sociais e saudava trabalhadores rurais —, a verdadeira atração começou: o “bolsa-feijoada”. Alto-falantes anunciaram o banquete gratuito, e os caminhões-baú da Prefeitura de Minas Novas descarregaram as refeições diante da multidão silenciosa, faminta, porém pouco entusiasmada.
O timing foi milimetricamente político: quentinha, só depois da fala de Lula. Antes, nada de comida. A fome do povo virou tática de contenção — ou chantagem disfarçada de gentileza.
A marmita virou moeda de troca simbólica de apoio popular, numa cena que percorreu o país pelas redes sociais. Vídeos e fotos viralizaram. Não pela beleza do gesto solidário, mas pela nudez do artifício: sem entrega de obras, sem brilho, sem emoção… restou a comida como último recurso de mobilização.
O lulismo sempre foi movido a paixão, a mitos e a massa. Agora, parece preso a uma fase indigesta: a do compromisso forçado, comprado a garfadas, empacotado em isopor. Não há mais espontaneidade. O povo que antes corria para vê-lo agora espera a sobremesa.
E há quem diga que isso não é populismo. Não é o pão e circo romano — porque falta o circo, os gladiadores, a alma da coisa. É só o pão, servido frio, numa bandeja com cheiro de derrota eleitoral. É a política do estômago, não da esperança. É a festa sem alegria, o evento sem povo, o discurso sem eco.
No fim, o retrato do Brasil profundo se inverteu. Antes, era o líder que alimentava sonhos. Agora, precisa alimentar estômagos. O encanto se quebrou, a mágica se foi. O presidente ainda fala, mas o povo quer apenas comer. Em silêncio.
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