
Cobrar pela água retirada de poços no Piauí vai muito além de uma política pública mal pensada é uma forma oficializada de crueldade social. Em um estado historicamente assolado por secas, insegurança alimentar e abandono institucional, a água subterrânea é, para milhares de famílias, a última fronteira da sobrevivência. Transformá-la em taxa ou tarifa é condenar o povo à servidão travestida de “gestão hídrica”.
A decisão do governo Rafael Fonteles de permitir e, em alguns casos, incentivar a taxação da água de poço escancara uma escolha política: a de ficar ao lado do capital, e não do povo. O Estado, que deveria garantir o acesso à água como direito fundamental, se alia a um modelo que transforma esse direito em mercadoria, empurrando comunidades inteiras à dependência e ao silêncio. Afinal, quem ousa reclamar diante da ameaça de perder o pouco que ainda tem?
Essa lógica de exploração não está restrita ao sertão. Nas zonas urbanas e polos industriais do estado, a situação também é perversa. A Aegea Saneamento, concessionária privada que opera em Teresina e diversas cidades piauienses, impõe uma relação desigual e abusiva com a população e os pequenos empreendedores.
A equação é absurda: o cidadão precisa pagar pela infraestrutura de canalização algo que, por obrigação legal e contratual, deveria ser fornecido pela própria concessionária para no fim comprar a água da empresa. É o cúmulo da inversão de valores: quem empreende, quem gera emprego, ainda precisa custear o caminho para o lucro de uma empresa privada, sob as bênçãos do Estado.
Essa engrenagem perversa impõe uma carga brutal a quem tenta trabalhar, produzir e desenvolver o Piauí. A pequena fábrica, o comércio de bairro, o loteamento em expansão, todos são forçados a investir pesado em obras que deveriam ser públicas e depois ainda pagam caro pela água que escoa nesses encanamentos. A Aegea lucra. O Estado arrecada. E o povo sangra.
No campo, a lógica é ainda mais cruel. A falta crônica de água tratada, de crédito, de assistência técnica e de políticas de geração de renda mantém o sertanejo refém. A água do poço, escavada com esforço, mantida com sacrifício, agora corre o risco de ser regulada, tarifada e eventualmente cortada. A consequência é clara: dependência política, submissão social e o renascimento do voto de cabresto agora sob a forma da chantagem hídrica.
A elite dirigente sabe disso. E se aproveita. Estabelece um sistema onde o cidadão, fragilizado econômica e emocionalmente, perde qualquer margem de reação. A servidão moderna não precisa mais de grilhões. Basta uma conta impagável, uma ameaça de corte, uma visita técnica com uniforme da concessionária. A humilhação agora é digital, automatizada, mas ainda profundamente humana.
É urgente denunciar esse modelo que transforma o problema da água uma tragédia secular no semiárido em instrumento de dominação. Ao invés de combater a escassez com soluções estruturantes, o governo do Piauí opta por monetizá-la. É uma escolha consciente. E, portanto, política.
Água é vida, é dignidade, é liberdade. No Piauí, ela está sendo convertida em cifrão e quem tem sede paga com o próprio suor, às vezes com a própria liberdade.
Cobrar por água de poço é institucionalizar a miséria. É converter a sede em moeda. É errar não apenas na técnica, mas na ética.
E quem faz essa escolha está, sim, do lado errado da história.
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