
Num país onde a cerveja patrocina o futebol, o carnaval e o happy hour, é quase uma contradição o tamanho da resistência dos evangélicos brasileiros ao álcool. Mas não é por acaso. Você pode pensar que a Bíblia proíbe - mas não é bem assim. Jesus transformou água em vinho, Paulo recomendava um gole para dores no estômago, e até o Antigo Testamento descreve o vinho como “alegria do coração do homem”. Então, por que o “crente” brasileiro vê a bebida como pecado?
A resposta não está tanto no céu, mas na história - e na política. No início do século 20, os missionários evangélicos que desembarcaram no Brasil vinham dos Estados Unidos em plena era da Lei Seca (1920–1933). Lá, o álcool era demonizado como combustível da degradação moral: associado ao tráfico ilegal (leia-se: Al Capone), à prostituição e à violência. A luta contra a bebida virou causa cristã, patriótica e moralista. Foi essa bagagem que cruzou o oceano.
Esses missionários trouxeram não só a Bíblia, mas também uma cartilha de “santidade” que incluía a abstinência total como forma de se separar do mundo corrompido. O Brasil, com suas festas regadas a cachaça, parecia o cenário perfeito para aplicar essa doutrina. E assim, beber tornou-se sinônimo de pecado — ainda que, ironicamente, os evangélicos dos EUA e da Europa hoje consumam álcool de forma moderada.
Nas igrejas brasileiras, especialmente nas pentecostais e neopentecostais, a abstinência virou um marcador identitário. Não se trata só de evitar o vício, mas de “ser diferente”, “ser puro”, “ser salvo”. O crente que não bebe não está apenas obedecendo a Deus - está rejeitando a cultura dominante, as festas mundanas, o carnaval, a “vida sem Deus”. Beber, mesmo moderadamente, virou sinal de fraqueza espiritual.
Mas há algo de perigoso nessa lógica. Quando tudo vira pecado, perde-se o sentido do discernimento. Ao invés de combater o abuso, combate-se o uso. E o resultado é uma comunidade que se define pelo que evita, e não necessariamente pelo que constrói. Isso sem falar na hipocrisia social: muitos condenam o álcool em público, mas o consomem discretamente.
O verdadeiro evangelho liberta, mas também orienta. E, ainda que a abstinência do álcool não seja uma exigência explícita das Escrituras, ela tem se mostrado, para muitos fiéis, uma escolha de sabedoria e compromisso. Em um mundo saturado de excessos, abrir mão da bebida se tornou um gesto contracultural - não por medo, mas por fé.
Mais do que uma regra cega, a abstinência é uma decisão prática que aproxima o homem da sobriedade, do autocontrole e de uma vida mais parecida com o ideal de santidade que a fé cristã propõe. Ela não deve ser vista como opressão, mas como proteção. Não como obrigação, mas como consagração.
Afinal, se não beber pode ajudar o crente a andar com mais retidão, clareza e propósito - por que não fazer dessa escolha um sinal de força espiritual? Nesse copo vazio, há mais do que uma renúncia: há uma afirmação de fé.
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