
A morte de Laura Cardoso, aos 98 anos, representa muito mais do que a despedida de uma grande atriz. É a partida de uma testemunha e, ao mesmo tempo, de uma das protagonistas da própria história da dramaturgia brasileira. Laura pertence a uma geração que ajudou a construir a televisão quando ela ainda dava os primeiros passos no país. Sua carreira atravessou mais de oito décadas, com mais de 100 trabalhos e participação em mais de 60 novelas, além do teatro, cinema e rádio.
Laura começou artisticamente ainda adolescente, aos 15 anos, nas radionovelas da Rádio Cosmos. Na televisão, tornou-se uma das pioneiras da TV brasileira, chegando à TV Tupi nos anos 1950, quando boa parte das produções era transmitida ao vivo e a dramaturgia televisiva ainda estava sendo inventada. Depois, passou por diferentes emissoras até chegar à Globo, onde construiu uma das trajetórias mais respeitadas da televisão brasileira.
Sua galeria de personagens ajuda a dimensionar a importância da perda. Laura foi Isaura, em Mulheres de Areia, Guiomar, em A Viagem, Sinhana, em Irmãos Coragem, Carmem, em Chocolate com Pimenta, e Laksmi Nanda, em Caminho das Índias, entre dezenas de outras interpretações. No cinema, também deixou trabalhos importantes e recebeu reconhecimento por sua atuação. No teatro, conquistou, entre outras distinções, dois Prêmios Shell. Ao longo da carreira, recebeu homenagens como a Ordem do Mérito Cultural e o Troféu Mário Lago pelo conjunto da obra.
Sua última participação em uma novela foi em A Dona do Pedaço, em 2019. Mas Laura não encerrou a carreira ali. Em 2025, aos 97 anos, participou do curta-metragem Dona Rosinha, no qual interpretou uma idosa abandonada pela filha. Foi seu último trabalho no cinema e uma espécie de despedida simbólica de uma artista que jamais aceitou a ideia de simplesmente se aposentar da arte.
Laura Cardoso morreu na noite de segunda-feira (17), em sua residência, em São Paulo. Segundo a família, a causa da morte foram causas naturais. Ela havia passado mal naquela noite e morreu por volta das 23h20.
A dimensão da perda está justamente naquilo que Laura representava. Ela não era apenas uma atriz de televisão. Era uma instituição da cultura brasileira, uma referência para gerações de atores e uma memória viva de diferentes fases da arte dramática no país. Sua interpretação tinha força, densidade e verdade. Laura não precisava de excessos para dominar uma cena. Bastava estar diante da câmera.
A televisão brasileira perde uma de suas grandes damas. O teatro perde uma intérprete de enorme estatura. O cinema perde uma presença rara. E o Brasil perde uma artista cuja história profissional praticamente acompanha a história da própria dramaturgia nacional.
Laura Cardoso parte aos 98 anos, mas deixa aquilo que os grandes artistas conseguem conquistar: personagens que não morrem.
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