
Enquanto o Brasil se debruça sobre os destroços deixados pela Lava Jato, uma nova empreiteira emergiu das cinzas para ocupar o espaço das velhas conhecidas. A LCM Construção e Comércio, criada em 2014 e quase desconhecida do público até poucos anos atrás, transformou-se em um gigante com contratos que já superam impressionantes R$ 23 bilhões com o governo federal. Só em 2023, no primeiro ano do terceiro mandato de Lula, a empresa abocanhou R$ 10 bilhões em contratos públicos. Não é pouca coisa para uma empresa que, em menos de uma década, ascendeu na engrenagem da máquina pública como se fosse uma veterana.
Mas a ascensão meteórica da LCM está sob a lupa da Polícia Federal, que nesta semana desnudou o que chama de “organização criminosa” agindo no DNIT do Amapá. O esquema investigado envolve fraudes em licitações para obras na BR-156, contratos direcionados e suspeitas de superfaturamento. Para completar, o presidente da empresa, Luiz Otávio Junqueira, é acusado de movimentar dinheiro de origem duvidosa por meio de saques fracionados e “laranjas”, uma clássica engenharia para lavar propina. Também entrou no radar o suplente do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, suspeito de usar seu peso político para liberar verbas para a empreiteira.
Os números assustam: apenas no Amapá, a PF apura desvio de R$ 60 milhões, num bolo muito maior que se espalha por obras financiadas em todo o país, inclusive com recursos do controverso orçamento secreto. Emendas parlamentares turbinaram os cofres da LCM com R$ 418 milhões, um atestado de que a política, mais uma vez, está entrelaçada com os negócios.
A LCM nega tudo, assim como Alcolumbre. Mas a pergunta inevitável é: como uma empresa tão jovem conquistou, em tão pouco tempo, tamanha fatia do bolo público? Sorte? Eficiência? Ou os velhos métodos, que continuam a permear a relação entre empreiteiras e poder, apenas trocaram de nome?
A Operação Route 156 expõe que a “nova política” não mudou a essência da velha prática. Entre viaturas, pórticos de pedágio e cifras bilionárias, fica claro que as engrenagens continuam girando a serviço de poucos, às custas do contribuinte. O Brasil assiste, mais uma vez, à coreografia já conhecida: agentes públicos afastados, empresários algemados, contratos suspeitos — mas nenhuma certeza de que alguém vai, de fato, pagar pelo rombo.
Enquanto a LCM promete colaborar e confiar na Justiça, os brasileiros continuam pagando a conta. E se perguntando: até quando?
BRASIL Brasil - A engrenagem da escassez: como o poder se alimenta da miséria
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