
O sonho do porto marítimo do Piauí é quase tão antigo quanto o próprio Estado. Desde o império se fala dele; desde os anos 1970 se empilha dinheiro público nele. Mas a verdade é cruel: o Piauí ainda não tem um porto - e talvez continue sem ter por muito tempo, se depender das soluções improvisadas que sucessivos governos vêm apresentando.
Agora é a vez do governador Rafael Fonteles vender sua versão do milagre: inaugurou em 2025, com pompa, um cais de 150 metros com 16 atracadouros, chamou de “porto” e garantiu que já estão sendo negociados navios cargueiros para 2025. O problema? Um cais não é um porto. Um cais é apenas um pedaço da infraestrutura mínima. Falar em porto, mesmo com a criação da estatal Porto Piauí e R$ 200 milhões já aplicados, é mais propaganda que realidade. Detalhe: um navio cargueiro de porte médio varia de 150 a 300 metros de comprimento.
O histórico não perdoa: meio bilhão já teria sido “sepultado” nas gestões anteriores, e o novo governo anuncia mais R$ 400 milhões de recursos públicos e ainda promete atrair R$ 2 bilhões da iniciativa privada. Parece promissor - não fosse o fato de que a obra inaugurada até aqui não atende sequer aos pré-requisitos para operar como um porto marítimo competitivo.
Um porto digno desse nome requer dragagem intensiva e contínua para calados superiores a 11,5 metros, a profundidade exigida para atracar um navio de porte médio. Só para se ter uma ideia, o Pordo do Pecém, no Ceará opera com um calado que varia entre 14 e 15 metros. Já o de Itaqui, na ilha de São Luiz do Maranhão, possui 23 metros de profundidade. Isso é quase duas vezes e meia o calado anunciado pelo governo para o porto de Luís Correia. Sim. Isso mesmo. O Porto Piauí, na barra do Rio Igaraçu, tem um calado que oscila entre 5 e 9 metros, insuficiente para os cargueiros que poderiam de fato tirar o Estado do isolamento econômico. E mesmo esse calado é ilusório: a correnteza da foz tende a enterrar rapidamente o que for dragado. É “chover no molhado”.
O porto do Rio Igaraçu tem projeto? E o projeto não previu isso? Foram realizados estudos? Não foi levado em conta a correnteza do rio que leva ao assoreamento constante?
Fonteles pode até estar bem-intencionado ao tentar reanimar o velho sonho, mas chamar um cais de porto é debochar da inteligência do contribuinte, do cidadão piauiense mininamente politizado. Navios cargueiros com capacidade de 10 mil toneladas, como promete a Companhia Porto Piauí, não mudam a realidade econômica de um Estado espremido entre os gigantes Pecém e Itaqui, ambos capazes de receber navios três ou quatro vezes maiores. Aliás, Itaqui já recebeu o maiores navios do mundo.
Navio de celulose Green Itaqui
Um dos maiores navios de celulose do mundo, com capacidade para 77 mil toneladas.
Navio de grãos Kydonia
O maior navio de grãos a operar no porto, carregando 76 mil toneladas.
Navio de fertilizantes (sem nome especificado)
Responsável pela maior carga de fertilizantes já registrada no Porto do Itaqui.
Petroleiro Zumbi dos Palmares
O maior navio de combustíveis já atracado na região Norte/Nordeste do Brasil, com capacidade para 135 mil toneladas de diesel S10.
Dá para perceber do que estamos falando. Porto é coisa séria. Mais grave: um cais custar R$ 200 milhões beira o absurdo, considerando que estamos falando apenas de um pequeno trecho de atracação e de serviços básicos. E não se vê um projeto atualizado, robusto, com cronograma e estudos completos de viabilidade econômica e técnica para transformar isso em um verdadeiro porto.
É difícil não enxergar que, ao longo dos últimos 60 anos, a história do “porto do Piauí” serviu muito mais de pretexto para sangrar os cofres estaduais do que de motor de desenvolvimento. Essa prática continua. Governos vão, governos vêm, sempre com novas promessas, sempre com mais anúncios pomposos - mas os navios grandes mesmo continuam aportando no Ceará ou no Maranhão.
Percebe-se que o governador Rafael Fonteles está ansioso para ter um porto para chamar de seu. Sim, o Piauí precisa de um porto. Mas um porto de verdade, com dragagem séria, infraestrutura pesada e administração técnica, não política. O que não dá é para a população continuar engolindo propaganda e batendo palmas para um cais milionário como se fosse um marco histórico.
A construção de um porto é audaciosa, custosa e estratégica. Requer engenheiros navais, projetos modernos, expertise internacional. Não se faz no improviso e nem com “boa vontade”. O que foi inaugurado em 2025 pode ser um primeiro passo - mas só se parar de ser vendido como um porto pronto.
Se o governo não parar para repensar agora, corremos o risco de enterrar mais centenas de milhões num buraco sem fundo e, no final, continuarmos dependendo do Pecém e do Itaqui para escoar nossa produção agrícola e de minério. Ou seja continuarmos a 'ver navios', mas apenas passando na nossa costa marítima.
O Piauí merece um porto. Não merece mais engodo.
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