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Dostoiévski, Lula e o perigo da virtude absoluta: quando a esquerda se apropria de ícones que não compreende

O autor russo, apesar de conservador, foi reinterpretado pela esquerda mundial e sua frase sobre virtude parece ter ecos no comportamento político contemporâneo

28/06/2025 às 06h00 Atualizada em 28/06/2025 às 10h15
Por: Douglas Ferreira
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Fiódor Dostoiévski filósofo e pensador Russo - Foto: Reprodução
Fiódor Dostoiévski filósofo e pensador Russo - Foto: Reprodução

A esquerda mundial tem por hábito se apropriar de personagens e valores que muitas vezes não compreende ou não consegue enfrentar ideologicamente. Foi assim com Zumbi dos Palmares, um líder negro que possuía escravos e, mesmo assim, é reverenciado como símbolo de libertação por movimentos de esquerda.

Como disse Dostoiévski: “Quando um homem se convencer de sua própria virtude, ele é capaz de qualquer coisa”.

E a frase, de forte carga moral e filosófica, ecoa com clareza na figura de Lula da Silva, presidente brasileiro, que não esconde a admiração por si mesmo e chega a se comparar a Jesus Cristo. Lula já admitiu que mentia deliberadamente para atacar governos anteriores. Acredite, já afirmou ser "a alma mais honesta do país" e disse que “o STF está acovardado”, sem sofrer consequência alguma por isso.

Sua visão sobre corrupção também é abrangente e relativizada - “existe em todos os lugares”, inclusive no Judiciário - como se essa constatação anulasse a gravidade do problema. A comparação com Jesus, que morreu crucificado por assumir todos os pecados, beira o sacrilégio.

A convicção inabalável de Lula em sua própria virtude justifica, aos seus olhos e aos de seus apoiadores, quaisquer afirmações ou atitudes, por mais questionáveis que sejam. Essa é justamente a advertência de Dostoiévski: a certeza de que se é moralmente superior pode abrir espaço para atitudes perigosas e autoritárias.

Mas quem foi Dostoiévski, afinal? Fiódor Dostoiévski é um dos maiores nomes da literatura russa e mundial. Em suas obras, como Crime e Castigo, Os Irmãos Karamázov e Os Demônios, ele mergulha na complexidade da alma humana, na tensão entre fé e razão, e nas consequências morais dos atos individuais. Crítico do niilismo, da perda de valores espirituais e do racionalismo extremo, ele foi um defensor da fé cristã ortodoxa e da monarquia russa.

Por isso, foi inicialmente visto com desconfiança pelos bolcheviques após a Revolução Russa de 1917. Seu pensamento conservador e sua crítica ao socialismo utópico, expressa com clareza em Os Demônios, foram censurados ou ignorados durante os primeiros anos do regime soviético.

Com o tempo, no entanto, sua obra passou a ser reinterpretada por 'intelectuais' soviéticos, que destacaram elementos compatíveis com a crítica ao capitalismo e à desigualdade social. Mesmo sem aderência ideológica ao comunismo, Dostoiévski foi parcialmente apropriado por correntes da esquerda que viam nele um crítico da alienação e da injustiça. Autores como Jean-Paul Sartre e Albert Camus foram influenciados por sua abordagem existencial da liberdade, da responsabilidade individual e da busca de sentido.

Essa apropriação seletiva é recorrente. Elementos conservadores, como a defesa da fé cristã, a crítica à revolução e a valorização da moral individual, foram deixados de lado. Já suas denúncias à violência, à injustiça e à degradação humana foram absorvidas como se ecoassem o discurso marxista - ainda que o próprio Dostoiévski rejeitasse o materialismo e a negação de Deus.

Em suma, Dostoiévski permanece um autor essencial porque nos alerta sobre os perigos da vaidade moral, da arrogância ideológica e da ilusão de superioridade ética. A frase que inicia este texto expressa com perfeição esse risco: quando alguém acredita cegamente na própria virtude, pode justificar qualquer barbaridade. E nesse ponto, a história parece se repetir - seja na Rússia do século XIX ou no Brasil do século XXI.

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