
É uma revelação tão assustadora quanto revoltante: segundo o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ), traficantes cearenses escondidos na Rocinha ordenaram mais de mil assassinatos em apenas dois anos no Estado do Ceará, a 2.600km de distância. Uma carnificina coordenada à distância, de dentro de uma favela no Rio, sob a proteção de criminosos locais - e diante da inércia ou incapacidade do Estado.
Como é possível que um grupo criminoso tenha operado com tamanha liberdade e alcance por tanto tempo? Por que o Ceará não conseguiu deter seus próprios líderes do tráfico, que fugiram e se reorganizaram no Rio de Janeiro? Por que só agora, depois de mil mortes, veio a ofensiva conjunta das polícias dos dois Estados?
E mais: se a operação do último sábado (31) pretendia prender os chefes dessa facção, como explicar o fracasso da missão? Nenhuma liderança foi capturada. Os alvos escaparam para a mata antes mesmo da chegada das forças de segurança. Resultado: um PM baleado no pescoço, alguns armamentos apreendidos, drogas confiscadas - e o núcleo do terror ainda livre.
A comunidade Dioneia, dentro da Rocinha, virou um quartel-general do Comando Vermelho do Ceará, onde criminosos pagavam pela estada em um prédio considerado “de luxo”. De lá, comandavam execuções, o tráfico de drogas e até ataques a provedores de internet no Ceará, exigindo propina para permitir o funcionamento do serviço. O crime organizado ditando as regras, cobrando pedágio, silenciando vozes - e matando sem ser incomodado.
Pior ainda é a ausência de informações básicas: quem são essas mil vítimas? Qual o perfil dos mortos? Estavam ligados a facções rivais? Eram civis, desafetos, inocentes? O número impressiona, mas a falta de transparência e de prestação de contas agrava a indignação. O que se sabe é que mil vidas foram ceifadas por ordens vindas de outro Estado - e quase ninguém foi responsabilizado até agora.
As imagens de apreensões de fuzis, munições e drogas servem de ilustração para as manchetes. Mas, na prática, a operação foi um fracasso tático e estratégico: a cúpula do tráfico continua foragida, e a sensação é de que o poder do crime permanece intacto, blindado por uma rede de proteção e omissão.
Enquanto isso, a população segue à mercê do medo. O crime age como um estado paralelo, impõe sua própria lei e desafia abertamente a soberania pública.
A pergunta que fica é: quem está no controle? O Estado ou os criminosos?







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