
Durante anos, o Brasil serviu como ponto de partida para a elite da inteligência russa, os chamados “ilegais”, conforme revelou uma reportagem investigativa do The New York Times. Esses agentes secretos apagavam seus rastros russos em território brasileiro e construíam identidades inteiramente novas, vivendo como cidadãos comuns: abriam empresas, faziam amizades e mantinham relacionamentos amorosos.
Diferente de outras operações de espionagem já descobertas, como a que ocorreu nos Estados Unidos em 2010, o objetivo desta não era espionar o Brasil, mas sim "tornar-se brasileiro". Com identidades convincentes, os agentes seguiam posteriormente para os Estados Unidos, Europa ou Oriente Médio, onde passavam a atuar de forma ativa em operações de inteligência a serviço do Kremlin.
Nos últimos três anos, a contrainteligência brasileira investigou discretamente esses agentes, descobrindo um padrão de atuação que permitiu desmascará-los. Ao menos nove oficiais russos foram identificados com cidadania brasileira falsa, segundo documentos analisados pelo NYT e entrevistas com agentes de inteligência de diversos países. A operação envolveu o apoio de serviços de inteligência dos EUA, Israel, Holanda, Uruguai e outras nações aliadas.
O desmonte dessa rede é visto como uma resposta internacional à crescente ofensiva russa na última década, marcada por ações como a derrubada de um avião em 2014, interferência em eleições e envenenamento de adversários. A invasão da Ucrânia, em 2022, intensificou a repressão global contra esses agentes, inclusive no Brasil — um país que, até então, mantinha relações amistosas com Moscou e era usado como território seguro pelos espiões russos.
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