
O governador Rafael Fonteles pode até dizer que gerar empregos no Piauí é uma “obsessão” de sua gestão, mas os dados recém-divulgados pelo IBGE mostram que, até aqui, essa obsessão não tem produzido resultados concretos. Com 10,2% de taxa de desemprego no primeiro trimestre de 2025 - a terceira maior do país - o Piauí retorna ao mapa do desemprego estrutural, desmontando o discurso de progresso sustentado que o Palácio de Karnak vinha tentando consolidar.
Mais do que um número, esse índice representa 145 mil piauienses desocupados, pessoas que desejam trabalhar, mas não encontram vagas. É um crescimento brusco em relação aos 108 mil desempregados registrados no final de 2024. E é, sobretudo, um alerta grave para um governo que se vende como moderno, técnico e eficiente.
A pergunta que não quer calar é: se em 2022 o desemprego era de 7% e agora chegou a 10,2%, onde está o erro? A resposta do governador - “é uma obsessão nossa reduzir o desemprego” - soa mais como um slogan publicitário do que como uma explicação convincente. Obsessão não é sinônimo de resultado. Obsessão sem correção de rumo é apenas teimosia com verniz.
Fonteles comanda um governo cercado por quadros formados em escolas de excelência como o Dom Barreto, projetando uma imagem de competência gerencial e capacidade analítica. Mas o que se vê na prática é um modelo de gestão que continua apostando nas mesmas fórmulas que não funcionaram no ano anterior: incentivos genéricos, promessas de atração de grandes empresas e uma retórica desenvolvimentista sem chão firme.
Enquanto isso, a microeconomia real do Estado - aquela que move pequenos negócios, feiras, comércios de bairro e cooperativas - segue desassistida ou sufocada por burocracia e falta de crédito estruturado. A obsessão por grandes projetos e “números macro” pode estar fazendo o governo ignorar onde o emprego de fato nasce: na base.
Se a estratégia de 2023 não funcionou, ela deveria ter sido repensada e aprimorada, não repetida. Essa é a lógica de qualquer gestão inteligente. Mas o que se vê é uma relutância em admitir falhas e um apego cego a diagnósticos equivocados. É como se o governo estivesse convencido de que o problema está no povo - que “não acompanha” o desenvolvimento - e não na estratégia.
Além disso, há o risco de o governo cair no vício fácil do endividamento como política pública permanente, contratando empréstimos para maquiar falhas e manter uma estrutura pesada de custeio. Isso pode até dar fôlego político no curto prazo, mas mina a sustentabilidade fiscal e empurra o problema para o próximo governante - ou para o próprio Fonteles, caso tente a reeleição.
O governador precisa parar de tratar o desemprego como um problema de comunicação e encará-lo como a mais séria falha de sua gestão até aqui. E precisa agir com urgência, porque se o índice subir para 12% ou 15%, nem mesmo “gênio da matemática” será capaz de resolver o rombo social e econômico causado por esse desemprego galopante.
A política pública não pode viver de propaganda nem de fetiches técnicos. É do trabalho que vem a renda, da renda que vem o consumo, e do consumo que vem o desenvolvimento. Se o Piauí está com 10% de desempregados, então alguma coisa - ou muita coisa - está errada. E obsessão, por si só, nunca foi política pública.
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