
Por mais que alguns tentem suavizar a realidade, o fato é inegável: a Prefeitura de Teresina enfrenta um rombo superior a R$ 3 bilhões, e ninguém parece querer assumir, de forma clara e direta, a paternidade desse passivo escandaloso. O prefeito atual, Dr. Sílvio Mendes (União Brasil), ao menos reconhece a gravidade da situação e, diferentemente de seus antecessores, tem se exposto para discutir o problema com a sociedade, os vereadores e o Tribunal de Contas do Estado. Mas isso basta?
Na manhã desta segunda-feira (19), Sílvio se reuniu com o presidente do TCE-PI, Kennedy Barros, para apresentar os números e pedir orientação sobre como proceder diante do colapso financeiro da capital. Segundo ele, o buraco não é obra exclusiva do ex-prefeito Dr. Pessoa (MDB). A bomba-relógio, afirma Mendes, começou a ser montada bem antes - com indícios de que também teria raízes na gestão do saudoso Firmino Filho, de quem Dr. Pessoa herdou o cargo em 2021.
Mas aqui surgem perguntas que não podem mais ser evitadas:
Se o déficit bilionário já era visível antes de Dr. Pessoa, por que sua gestão não agiu?
Por que não houve auditorias independentes, nem denúncias públicas, nem alerta ao Tribunal de Contas naquela época?
Afinal, Dr. Pessoa foi cúmplice por omissão ou vítima de um jogo fiscal já viciado?
A resposta a essas perguntas ainda está imersa em névoas. O que se sabe é que a gestão Pessoa não apenas ignorou os sinais, como tampouco se esforçou para revertê-los ou expô-los. Não há registros de medidas concretas para transparência ativa, nem publicações que alertassem sobre a herança maldita deixada por gestões anteriores. A sociedade ficou às escuras.
E o ex-prefeito Firmino Filho, que teve quatro mandatos e morreu tragicamente em 2021, também não pode ser blindado de qualquer avaliação crítica. Sílvio Mendes - que também já comandou a cidade em duas gestões anteriores e se diz orgulhoso de ter deixado os cofres públicos em ordem - sugere que há dívidas originadas após sua saída, mas anteriores à gestão Pessoa. Se isso for confirmado, será a primeira rachadura pública na imagem administrativa que Firmino cultivou ao longo de décadas.
Ainda assim, é curioso - e até contraditório - que nenhum prefeito até hoje tenha aberto as contas com a devida transparência. A chamada "herança maldita" só costuma ser denunciada quando já não há mais como escondê-la.
Agora, Sílvio Mendes tenta reorganizar a casa. Ao menos teve o gesto político de ir à Câmara por iniciativa própria e expor os números aos vereadores. Isso, no entanto, não deve ser interpretado como heroísmo, mas como obrigação institucional. O povo de Teresina tem direito a saber o que foi feito com o seu dinheiro - e por quem.
O Tribunal de Contas promete investigar, mas o tempo da burocracia é lento. O que falta é vontade política real de virar essa página com responsabilidade. E, para isso, não basta apontar o dedo para o antecessor. É preciso que cada gestão explique, com documentos, onde errou - se errou - e por que silenciou. Porque neste momento, a única certeza é que alguém gastou muito mais do que Teresina podia pagar.
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