
Brasil às vésperas da COP30: Degradação acelerada da Amazônia expõe contradições ambientais
Em um momento em que o mundo volta os olhos para o Brasil, sede da COP30, o país enfrenta uma realidade ambiental alarmante: um crescimento expressivo da degradação florestal na Amazônia, que já supera os índices de desmatamento. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), de 2022 a 2024, a degradação aumentou 163%, afetando mais de 25 mil km² da floresta - o equivalente ao estado de Sergipe.
Não se trata apenas de desmatamento, que de fato teve uma queda histórica (5,8 mil km² em 2024, o menor índice em 10 anos). O que preocupa agora é um “coquetel” de destruição silenciosa, envolvendo:
Incêndios florestais (66% da área degradada em 2024),
Secas extremas, com chuvas até 100 mm abaixo da média,
Corte seletivo de árvores,
Efeito de borda, que enfraquece as margens das florestas remanescentes,
Erosão, perda de biodiversidade e contaminação indireta dos mananciais.
Segundo o pesquisador Guilherme Mataveli (Inpe), a degradação é mais difícil de detectar porque a floresta permanece de pé, mas seus serviços ecossistêmicos - como regulação hídrica, absorção de carbono e equilíbrio do clima - são comprometidos.
A degradação florestal já está alterando o regime hídrico da região. A estação chuvosa começou com atraso, os rios atingiram níveis mínimos históricos e as temperaturas subiram mais de 3°C. Além disso, os 140,3 mil focos de calor registrados em 2024 foram os maiores desde 2007, impulsionando ainda mais a liberação de carbono na atmosfera e agravando o aquecimento global.
O cenário é ambíguo. No discurso internacional, o Brasil reforça seu papel de líder climático e anfitrião de peso na COP30. Assumiu compromissos ambiciosos na Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC), com a promessa de reduzir até 67% das emissões líquidas até 2035 (base 2005).
Mas, na prática, a degradação crescente da Amazônia compromete essa imagem. Organizações ambientais e setores da comunidade internacional veem o país ora como guardião do maior bioma tropical do mundo, ora como cúmplice da destruição de seus ecossistemas mais estratégicos.
Receber a COP30 em Belém, no Pará, é uma oportunidade histórica, mas também uma responsabilidade enorme. O aumento da degradação florestal pode:
Desacreditar os compromissos brasileiros perante a comunidade internacional,
Comprometer financiamentos e parcerias ambientais externas,
Colocar pressão política interna sobre a fiscalização ambiental e
Exigir transparência e ação rápida na recuperação da floresta degradada.
Segundo Luiz Aragão, também do Inpe, “reportar as emissões associadas à degradação é um caminho sem volta”. A credibilidade do Brasil como líder climático dependerá da capacidade de resposta às pressões ambientais internas e da implementação de políticas públicas eficazes de controle e recuperação florestal.
A degradação da Amazônia é o novo rosto da crise ambiental brasileira - mais silenciosa, mais difícil de combater e potencialmente mais devastadora a longo prazo. Em tempos de COP30, o país precisa decidir se ocupará o papel de protagonista climático ou de omisso diante da destruição paulatina de sua maior riqueza natural. O mundo estará atento.
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