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Agnotologia: a ciência da ignorância e os riscos do saber negado

Historiador inglês Peter Burke explica como a ignorância é produzida intencionalmente e alerta: “a ignorância dos poderosos é perigosa”

11/05/2025 às 06h02
Por: Douglas Ferreira
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Peter Burke, o estudioso da ignorância com o método - Foto: Reprodução
Peter Burke, o estudioso da ignorância com o método - Foto: Reprodução

O mundo vive um paradoxo inquietante: nunca estivemos tão avançados tecnologicamente - inteligência artificial, exploração espacial, medicina de ponta - e ao mesmo tempo tão mergulhados em desinformação, negacionismo e manipulação de fatos. É nesse cenário que ganha força uma nova e necessária ciência: a Agnotologia - o estudo da ignorância intencionalmente produzida e disseminada.

Essa área do conhecimento busca entender como informações são deliberadamente escondidas, distorcidas ou apagadas do debate público por governos, empresas, grupos de interesse e até mesmo plataformas digitais. Em outras palavras, trata-se de investigar como a ignorância é fabricada e instrumentalizada para manter estruturas de poder.

Um dos principais estudiosos desse fenômeno é o historiador britânico Peter Burke, professor da Universidade de Cambridge. Aos 87 anos, ele lançou recentemente o livro "Ignorância", fruto de décadas de pesquisa sobre o conhecimento - e, agora, sobre sua ausência. De passagem pelo Brasil, Burke concedeu uma entrevista ao jornal O Globo, na qual apresentou reflexões alarmantes sobre os efeitos da ignorância na política, na sociedade e no meio ambiente. O Gazeta Hora1 traz uma síntese dessa conversa reveladora e de grande atualidade.

Uma ignorância cultivada

Burke lembra que, historicamente, elites cultivaram a ignorância como forma de controle - desde a ocultação de conhecimentos científicos, como os riscos do cigarro, até a dominação de mulheres e trabalhadores por meio da falta de acesso à educação. No Brasil, ele cita como exemplo a devastação da Amazônia para o cultivo de gãos e agora, a tentativa de exploração de petróleo na Foz do Amazonas. “Não é ignorância simples, é escolher não saber”, denuncia.

“É um tipo de negacionismo histórico. Os mais velhos fingem não saber, porque não viverão as consequências. As próximas gerações é que pagarão a conta", afirma.

O historiador também critica a tendência de ridicularizar os eleitores considerados "ignorantes", seja à direita ou à esquerda: “Isso não ajuda. Intelectuais tendem a dizer que as pessoas fazem escolhas irracionais, como se desprezassem quem consome um produto que eles não aprovam. Mas as pessoas votam por interesses. E é preciso entender esses interesses”.

Ignorância como ferramenta política

Burke destaca que ignorância e autoritarismo caminham juntos. “A ignorância dos que detêm o poder é perigosa. A do povo pode piorar ainda mais. Sem conhecimento, o eleitor vota mal, e a democracia enfraquece”. Ele é um crítico de carteirinha do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro. Burke o cita como exemplo de ignorância extrema: “Sofre da forma aguda, a de nem saber que nada sabe”. Com um viés - claramente de esquerda -IG evita falar sobre a ignorância do presidente Lula.

Apesar do avanço do conhecimento coletivo, Burke observa que individualmente as pessoas sabem cada vez menos: “Num mundo altamente especializado, aprendemos sempre à custa daquilo que deixamos de aprender”. Por isso, defende uma educação crítica desde cedo, capaz de formar cidadãos atentos à origem das informações e aos interesses por trás delas.

O papel do intelectual

Sobre o papel do intelectual na sociedade, ele é claro: “Desde sempre se espera que um intelectual choque com novas ideias. Mas hoje há muitos querendo esse papel sem as qualificações. Não basta chocar, é preciso ter conteúdo”. Ele também alerta para a crença de que a internet, por si só, resolveria os problemas da ignorância: “Cada novo meio traz a promessa de um futuro melhor, mas, muitas vezes, o que acontece é o contrário - quando grupos poderosos se apoderam dele”.

Uma lição de humildade

Casado com a historiadora brasileira Maria Lúcia Pallares (com livros sobre a vida e obra de Gilberto Freire), Burke visita o Brasil há mais de 40 anos. Seu olhar estrangeiro é equilibrado: “Os ingleses são melhores na vida pública, com menos corrupção. Mas os brasileiros são melhores na vida privada, nas relações humanas”. Para ele, o reconhecimento de diferentes formas de saber - indígenas, populares, orais - é um dos avanços recentes mais importantes: “Admitir que outros povos sabem tanto quanto nós é uma lição de humildade”.

Em tempos de fake news, negacionismo climático e revisionismo histórico, o alerta de Burke soa como um chamado urgente: precisamos estudar a ignorância - não para aceitá-la, mas para desmontá-la.

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Flavio PinheiroHá 1 ano Bom JesusAbster-se de comentar sobre a ignorância do Lula, já o torna parcial, tira toda a sua credibilidade!
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