
No Piauí, o que já era preocupante virou padrão: endividar ainda mais o Estado para pagar o que já devia. O governador Rafael Fonteles (PT) acaba de protocolar na Assembleia Legislativa mais dois pedidos de empréstimo, que somam R$ 5,2 bilhões. Juntando-se à solicitação anterior, feita há poucos dias, o valor total dos novos créditos em tramitação chega a espantosos R$ 11 bilhões.
Mas, ao contrário do que poderia supor o cidadão comum - já exausto das promessas de “obras estruturantes” -, o dinheiro não tem como objetivo principal expandir investimentos. O foco, agora, é simplesmente tentar conter o rombo: parte dos recursos será usada para “recompor” e reestruturar dívidas já assumidas anteriormente pela própria gestão.
É o ciclo vicioso de um governo que parece operar como um trabalhador desgovernado e sem poupança que recorre a um agiota para pagar o outro. A diferença é que, nesse caso, o agiota atende pelo nome de BIRD ou Banco do Brasil - e quem coloca o pescoço a prêmio não é o gestor, mas sim os 3,3 milhões de piauienses, que pagam essa conta por meio de impostos cada vez mais sufocantes.
A primeira solicitação recente é de US$ 392 milhões (cerca de R$ 2,2 bilhões) junto ao Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD). O objetivo declarado? Reestruturar dívidas no âmbito do programa “Piauí Sustentável e Desenvolvido”, uma marca já desgastada de uma gestão que, até aqui, não conseguiu entregar melhorias visíveis nas áreas que mais importam à população.
A segunda operação prevê a contratação de R$ 2,98 bilhões junto ao Banco do Brasil, com promessas de investimento em sete áreas prioritárias - como saúde, segurança, mobilidade e infraestrutura hídrica. Mas não se engane: esse roteiro já foi exibido antes. Empréstimos são aprovados com agilidade “the flash” na Assembleia Legislativa, milhões entram, mas as rodovias continuam esburacadas, hospitais vivem à míngua e a segurança pública enfrenta carência crônica de efetivo e equipamentos.
A dúvida que paira é: onde estão os bilhões já contratados? As rodovias estaduais, por exemplo, são o retrato do abandono. Trechos completamente deteriorados, pontes interditadas, ausência de manutenção básica. Enquanto isso, o governo acena com novos empréstimos como se fosse possível resolver um incêndio jogando mais gasolina.
Na saúde, a precarização dos serviços é visível até nos grandes centros. Em municípios menores, a situação beira o colapso. E na segurança pública, faltam viaturas, armamentos e agentes - apesar dos milhões prometidos para o setor. Resultado: a criminalidade faccionada tomando conta das ruas, praças e avenidas, tocando o terror até contra os próprios agentes das forças de segurança do Estado.
Impostos altos, retorno baixo
Enquanto o governo, sem nenhuma poupança, se endivida, a população sofre com a carga tributária cada vez mais pesada. Os impostos estaduais não param de subir, o ICMS consome parte do salário do consumidor a cada compra, e a resposta do Estado é sempre a mesma: mais dívida, mais promessa, mais justificativa técnica.
A justificativa formal para os novos empréstimos é de que eles permitirão “melhores condições financeiras” e “modernização dos serviços públicos”. Bem ao estilo control C, control V. O discurso, no entanto, contrasta com a realidade das ruas. O Estado, na prática, está pegando empréstimos para pagar empréstimos, num modelo que pode até parecer sustentável nos relatórios bancários, mas que socialmente está corroendo o futuro do Piauí.
Essa é a visão dos analistas políticos e economistas piauienses. O economista George Mendes entende que:
“Ao buscar autorização para a rolagem da dívida, o governo considera não ter condições de arcar com o pagamento em dia dos empréstimos antes contraídos”.
Sim. O Estado do Piauí, mesmo com arrecadações recordes nos últimos anos, não consegue poupar. Gasta tudo que arrecada e ainda um “pouquito” mais. E a saída?
“A busca de uma ‘folga de caixa’ para tocar o seu próximo investimento. O ex-governador Wellington Dias já chamou isso de ‘antecipação de desenvolvimento’, subvertendo um conceito raro de equilíbrio fiscal”, reforça Mendes.
O economista Geoge Mendes vai além:
“Essa necessidade do tesouro estadual decorre da realidade de que não temos capacidade real de pagamento por falta de poupança. E o governo quer seguir gastando o que não é seu, sem medir a qualidade e o retorno desses gastos constantes”.
E Mendes conclui:
“A rolagem da dívida significa trocar dívidas antigas por nova dívida unificada em um só credor”.
Não resta dúvidas de que o governo tem como foco a reeleição. E é aí que reside o perigo. O perigo do numerário de R$ 11 bilhões, em caixa, em pleno ano eleitoral. A tentação é grande e todo governo é, por natureza, pecador.
O modelo adotado pela gestão petista é arriscado. Tão arriscado quanto irresponsável. Ao trocar dívidas antigas por novas, alongando prazos e aumentando o volume total, o governo adia um problema sem resolvê-lo - e transfere a conta para os próximos anos, para os próximos governadores, para os filhos e netos dos piauienses de hoje.
Rafael Fonteles chegou ao poder com o discurso de que faria uma gestão moderna, técnica e eficiente. Por ora, o que se vê é uma administração que opera como um banco de fomento de si mesma: toma dinheiro aqui para pagar ali, numa ciranda financeira que sufoca o cidadão e empobrece o Estado.
A pergunta que não quer calar é simples e urgente: se os bilhões anteriores não deram conta de melhorar a infraestrutura, a saúde, a segurança ou a vida do piauiense comum - o que garante que mais R$ 11 bilhões, agora, resolverão?
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