
Neste 26 de abril de 2025, a Igreja Católica sepultou não apenas um papa, mas uma era. O corpo de Francisco — Jorge Mario Bergoglio, o primeiro papa latino-americano, o primeiro jesuíta a ocupar o trono de Pedro — foi enterrado na Basílica de Santa Maria Maggiore, em Roma, como ele próprio havia pedido: com simplicidade, em um caixão de madeira, sem pompa nem sarcófago dourado.
Ao contrário de seus antecessores, Francisco escolheu a basílica que frequentava como cardeal, uma igreja onde os mármores e os afrescos dialogam com o povo comum que ele tanto tentou defender. Foi um adeus sem coroas, sem tronos, sem vestes bordadas a ouro. Um adeus que, para muitos dentro e fora da Igreja, soou como o último gesto de uma rebelião silenciosa.
O funeral, transmitido ao vivo para o mundo, reuniu chefes de Estado, líderes religiosos, multidões e milhões de olhares. Mas também revelou o contraste: enquanto se celebrava a misericórdia e a abertura que Francisco pregou, já ecoavam nos bastidores as movimentações para o próximo conclave — disputas de poder entre alas que jamais digeriram um papa que ousou colocar pobres, migrantes e excluídos no centro do discurso católico.
O cardeal Giovanni Battista Re, ao presidir a Missa das Exéquias, resumiu a contradição de um pontificado que incomodou: "Francisco deixou uma marca de forte personalidade na Igreja. Colocou o Evangelho da misericórdia no centro e insistiu que a Igreja deve ser uma casa para todos."
Uma casa para todos — inclusive para os que, dentro da própria hierarquia eclesiástica, o atacaram veladamente ao longo dos últimos anos.
A morte de Francisco deixa em aberto uma série de perguntas desconfortáveis. A Igreja que o viu partir será capaz de preservar algum vestígio de sua ousadia pastoral? Ou rapidamente tentará encerrar o parêntese "bergogliano" como uma exceção inconveniente?
Os gestos do funeral já indicam parte da resposta: embora as multidões tenham aplaudido o cortejo em silêncio respeitoso, o cerimonial discretamente sinalizou que a transição para o próximo papa busca uma volta ao conservadorismo mais clássico. A morte de Francisco é, para muitos setores do Vaticano, não apenas a perda de um líder, mas o alívio do fim de um incômodo.
O mundo político, por sua vez, se apropriou do adeus a Francisco como palco diplomático.
Líderes como Javier Milei, Lula, Trump, Macron, Scholz e Zelensky transformaram o luto em plataforma de encontros, acordos e fotos oficiais. A presença do príncipe William, representando Charles III, acrescentou um tom monárquico às despedidas de um papa que sempre foi avesso a coroas e rituais.
Com a morte de Francisco, inicia-se o Novendiali — nove dias de luto e orações — e, nos bastidores, os arranjos para o conclave que definirá o futuro da Igreja. Mais que escolher um novo papa, o que estará em jogo é o próprio destino da tentativa de Francisco de aproximar a fé dos deserdados e de repensar o poder clerical.
Francisco se despediu como viveu: simples, humano, inquieto.
Resta saber se a Igreja, agora órfã de sua coragem, voltará para as muralhas douradas ou ousará continuar com as portas abertas — como ele pediu tantas vezes, até o último suspiro.
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