
A reportagem especial da Revista Pesquisa FAPESP (edição nº 350, abril de 2025), intitulada Violência escolar aumenta nos últimos 10 anos no Brasil aborda o alarmante aumento da violência nas instituições de ensino brasileiras nos últimos 10 anos, com um pico de ataques entre 2022 e 2023. Dados preocupantes que desafiam não apenas o sistema educacional, mas o próprio compromisso do Estado com os direitos humanos fundamentais de crianças, adolescentes e profissionais da educação.
Segundo dados do Ministério de Direitos Humanos e Cidadania (MDHC), apontados na reportagem, os casos de violência interpessoal em instituições de ensino aumentaram de 3,7 mil em 2013 para 13,1 mil em 2023. Mais alarmante ainda é o crescimento da violência autoprovocada, que inclui automutilações, tentativas de suicídio e suicídios, e que cresceu 95 vezes no período.
A reportagem destaca ainda que o Ministério da Educação (MEC) reconhece a violência escolar em quatro categorias: ataques letais; violência interpessoal (entre alunos, professores e outros membros da comunidade escolar) e bullying (intimidações recorrentes); violência institucional (como práticas excludentes e omissão frente à diversidade); e violência do entorno (tráfico, tiroteios e assaltos próximos às escolas). Outros dados citados na matéria vêm do Atlas da Violência 2024, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que aponta que a proporção de alunos que relatam ter sido vítimas de bullying subiu de 30,9% em 2009 para 40,5% em 2019. No mesmo ano, 11,4% dos estudantes afirmaram ter deixado de frequentar a escola por se sentirem inseguros — mais que o dobro do percentual de 2009.
Estudiosos citados pela reportagem atribuem parte do aumento da violência a fatores como a desvalorização do magistério, a precarização da infraestrutura escolar e o avanço de discursos de ódio. A psicóloga Angela Soligo (Unicamp) destaca a ausência de acolhimento adequado aos estudantes que sofrem com racismo, machismo e homofobia, afirmando que leis como a 10.639/2003 e a 11.645/2008, que preveem a inclusão de conteúdos sobre a história da África e dos povos indígenas, muitas vezes não são respeitadas.
A ausência de preparo das secretarias de educação para lidar com os conflitos também foi abordada por uma pesquisa coordenada pela socióloga Flávia Xavier (UFMG), que avaliou 14 estados e 182 municípios. Apenas 4,1% das secretarias apresentaram alto grau de estruturação para enfrentar a violência escolar, evidenciando uma fragilidade preocupante na gestão do clima escolar. A maioria das redes possui ações pontuais, sem integração entre educação, saúde e assistência social. Outro aspecto grave apontado é o alto índice de subnotificação: 40% dos diretores escolares entrevistados afirmaram não enfrentar nenhum tipo de violência em suas unidades, o que revela um descompasso entre a realidade vivida pelos alunos e sua percepção pelas gestões escolares.
O panorama do aumento da violência escolar no Brasil, traçado na pesquisa Fapesp, é muito preocupante e sua análise aponta para uma complexa interação de fatores sociais, políticos, econômicos e institucionais que contribuem para esse cenário. Para romper esse ciclo de violência, é essencial que os governos — em todas as esferas — promovam políticas públicas permanentes, integradas e sensíveis à equidade. É preciso também que nos unamos e participemos efetivamente de campanhas e ações de incentivo à Cultura da Paz nas escolas, nas famílias (e em todos os outros campos da sociedade) e contra a violência, proporcionando que escolas, lares e convivências em sociedade voltem a ser ambientes seguros, acolhedores e respeitosos para todos. Que sejam locais de acesso ao conhecimento, de desenvolvimento e de aprendizagem, de formação e valorização da vida, da cidadania e do próprio ser humano.
Fonte: Fapesp (https://revistapesquisa.fapesp.br/)
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